07 de junho de 2023

Roda de conversa aborda rotas afro e os registros no acervo da Câmara

Documentos da Câmara Municipal sobre os locais que compõem as Rotas Afro em Piracicaba foram apresentados em roda de conversa na Igreja São Benedito

Texto: Daniela Teixeira - MTB 61.891
Supervisão: Rebeca Paroli Makhoul - MTB 25.992

Os documentos que a Câmara Municipal possui referentes aos locais que compõem as rotas afro em Piracicaba foram apresentados em roda de conversa, realizada na tarde desta terça-feira (6). O encontro foi sediado na Igreja São Benedito, imóvel tombado, desde 2002, como Patrimônio Histórico Cultural de Piracicaba.

“Vamos falar do lúdico, do folclore, mas nós falaremos também da história com H maiúsculo, porque quem vai falar é preparado e formado, tem uma visão acadêmica. Nós não vamos falar a partir de senso comum, embora eventualmente ele esteja presente”, declarou o vereador Acácio Godoy (PP), mediador da roda de conversa promovida pela Escola do Legislativo “Antonio Carlos Danelon - Totó Danelon".

Rotas Afro é um movimento de afro-turismo que conta as histórias negras de quatro cidades do interior paulista: Piracicaba, Campinas, Rio Claro e Vinhedo. A produtora cultural e guia de turismo, Julia Madeira — fundadora do projeto, discorreu sobre os locais listados no roteiro, que se inicia Largo Santa Cruz e é finalizado nos arredores do Engenho Central.

Ao longo da conversa, os servidores Giovanna Fenili Calabria, Dayane Cristina Soldan e Bruno Didoné de Oliveira, do Setor de Gestão de Documentação e Arquivo da Câmara, apresentaram registros relacionados às rotas afro que já estão disponíveis no sistema ATOM (Acess To Memory). O evento ainda teve a participação dos especialistas Antônio Filogênio de Paula Junior e Marilda Aparecida Soares, que contextualizaram a origem afro no Brasil e em Piracicaba.

A arquivista Giovanna Fenili Calabria esclareceu que a Câmara foi criada em 1822, depois que a cidade foi elevada de freguesia à vila e, por isso, os registros do arquivo datam após a criação do Legislativo. “É bom pontuar que a documentação que a gente tem são documentos que foram produzidos ou recebidos pela Câmara. É muito pontual que a gente tem a história contada por pessoas específicas que ocupavam um lugar específico, com intenções específicas e contextos específicos”, disse.

Rotas

Largo Santa Cruz — Julia Madeira relata que existem registros de que o Largo Santa Cruz foi um ponto de encontro da população afrodescendente de Piracicaba, onde faziam festejos, feiras e muitas “estripulias”.

Nos registros da Casa, foram encontrados documentos sobre a lei que abre a rua e alguns preparos. Também há um registro sobre a instalação da forca na qual a Câmara deliberou que poderia ser adiante da ponte do rio Itapeva, à direita, ao lado da rua Santa Cruz.

Clube Treze de Maio -  em fevereiro de 1952, a Câmara Municipal discutia o projeto de lei 4, para o município poder premiar os cordões carnavalescos e caminhões de rancho. A iniciativa da propositura veio do vereador Oscar Manoel Schiavon. O assunto gerou discussões contrárias e favoráveis na Casa e também na cidade.

O projeto de lei original está sob a guarda do Setor de Documentação e Arquivo da Câmara Municipal. “Possivelmente não houve o auxílio financeiro então proposto, já que na segunda página traz a menção que a proposta foi retirada pelo autor, mas não há uma justificativa”, afirmou o servidor Bruno Didoné de Oliveira, que pesquisou o documento original.

Praça José Bonifácio

A finta – Em 10 de agosto de 1822, Piracicaba deixa de ser Freguesia e torna-se Vila. Na prática, o novo título significou o início da conquista da autonomia administrativa da futura cidade.

Para que o poder local pudesse ser de fato exercido, além de designar pessoas para os cargos da administração, também se fazia necessária a construção dos espaços públicos reservados para as decisões e para a vida comunitária da então chamada Vila Nova da Constituição.

Estabelecida em 1822, a “finta” determinava que os proprietários pagassem o tributo de 400 réis por escravo (considerado propriedade) para viabilizar financeiramente a construção de obras públicas.  A finta foi o primeiro tributo estipulado pela municipalidade quando da conquista de sua autonomia e aparece numa Ata de Vereança de 12 de agosto de 1822: “uma finta de quatrocentos réis por cabeça de cada escravo deste Distrito”.

O pelourinho - Localizava-se na praça José Bonifácio, próximo à fonte e ao coreto, que existiam na época, onde mais tarde seria instalado o Teatro Santo Estevão. O pelourinho representava o “sinal de respeito e justiça”.

“O pelourinho é uma estrutura que ficava em evidência nos centros das novas cidades que passaram de freguesia para a vila, que tinham essa autonomia administrativa. Para se tornar cidade precisava ter um pelourinho, isso é uma coisa que eu sempre lembro as pessoas, que para ser cidade precisava ter uma câmara, uma cadeia, uma igreja, uma capela e um pelourinho”, explicou Julia Madeiro.

“Percebam como a escravidão fundou as nossas organizações. Não é só no imposto, é também na organização da cidade, é também na forma do que a cidade precisa, nos requisitos que ela precisa atingir para ser uma cidade”, completou.

Nos arquivos da Câmara, existe um documento datado de 19 de abril de 1830, no qual o governo de São Paulo questiona a Câmara sobre o uso indevido do pelourinho, no qual um homem liberto foi castigado e açoitado. Tal documento é acompanhado pela resposta da Câmara de Piracicaba (Vila Nova da Constituição), direcionada à Província.

Rotas Afro nos arquivos da Câmara Municipal de Piracicaba - O roteiro do Rotas Afro conta as histórias do Clube Treze de Maio, da Igreja São Benedito, do Batuque de Umbigada e histórias de personalidades negras como Madrinha Eunice, Dr. Preto, Irmãos Rebouças e muitos outros.

Registros da Câmara sobre os demais locais das Rotas Afro, a história de personalidades negras e o contexto da escravatura em Piracicaba serão abordados em uma série de reportagens publicadas semanalmente.

Filmagem: TV Câmara