PIRACICABA, SEXTA-FEIRA, 20 DE MAIO DE 2022
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28 DE JANEIRO DE 2022

Povoação de Piracicaba teve dificuldades na obtenção de novo padre


Documentos em posse e sob a guarda da Câmara focam as tratativas e desafios da então Piracicaba de outrora para se estabelecer perante o Império e autoridades eclesiais



EM PIRACICABA (SP)  

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Povoação de Piracicaba teve dificuldades na obtenção de novo padre



A série Achados do Arquivo, que às sextas-feiras aborda diferentes aspectos da formação histórica de Piracicaba apresenta documentos em posse e sob a guarda da Câmara Municipal que focam o período em que a então Vila Nova da Constituição, em 1767 teve dificuldades na obtenção de um novo padre. Os relatos também abordam a perspectiva da formação da cidade, a exemplo do que foi a transferência da povoação para o lado direito das margens do rio Piracicaba, dada a fertilidade do solo, facilidade de deslocamentos e outros atrativos que impulsionaram o crescimento da cidade.

O documento a seguir, em anexo abaixo, reflete sobre a memória do estabelecimento da nova povoação de Piracicaba junto à margem da parte além do rio de mesmo nome e da sua mudança e de edificação para a outra margem. Também ressalta aspectos de autoridades eclesiásticas da época, que influenciaram na decisão governamental de mudar a povoação inicial no que hoje representa a região da Vila Rezende e Nova Piracicaba, para o outro lado do rio onde a cidade se projeta na contemporaneidade, na área central, a partir da avenida Beira Rio.

PRIMÓRDIOS - a povoação de Piracicaba, que teve o mesmo nome do rio que rega suas terras, tem a origem do nome gentílico, que no idioma português significa lugar onde chega o peixe, no salto do rio, com abundância de espécie, que sobe a correnteza do rio. O rio Piracicaba tem a sua origem de dois caudalosos ribeirões, o Jaguari e o Atibaia e a sua barra com o rio chamado Anhembi ou Tietê, e sendo menor do que este, no fluxo das águas, o iguala na latitude. "O rio é de agradável vista, de boa navegação e muito saudável, com o seu terreno alegre, fértil, cheio de salsaparrilha e excelente para todo o gênero de cultivo", atestam os documentos históricos.

Com a qualidade destas informações inestimáveis, na ocasião, D. Luis Antonio de Souza Botelho e Mourão, Governador e Capitão Geral da Capitania de São Paulo, consecutivamente, no tempo em que a mui respeitável Coroa de Portugal cingia a augusta cabeça do grande Rei, o Senhor D. José, o Primeiro, que determinou fundar a povoação neste terreno, tendo como provisão datada em 24 de julho de 1766, onde foi instituído o diretor responsável, Antonio Correia Barbosa, natural da Vila de Itu, que no dia 1.º de agosto de 1767 fundou a Povoação e mais tarde foi promovido a Capitão, pela Companhia de São Paulo.

Para a formação de Piracicaba, por ordem do Governador-Geral, foram convocados vadios, dispersos e vagabundos. Alguns indivíduos de melhor condição foram atraídos pela nova vila, em função da fertilidade da região. A ocupação deste espaço nas margens do rio Piracicaba já se transcorria por seis anos, 10 meses e 21 dias em que a população local ficava sujeita à Paróquia de Itu, com grave detrimento pela distância de 14 léguas (84 quilômetros). Assim, o bispo Diocesano D. Francisco Manuel da Ressurreição designou o Padre João Manuel da Silva, a erguer uma igreja Matriz em Piracicaba, separada de Itu, tendo Santo Antonio como padroeiro.

Também foi determinado a divisão eclesiástica com o ribeirão Capivari, que se tornaria a cidade vizinha com o mesmo nome do rio. O Pároco e Reverendo João Manuel da Silva era um presbítero secular, de virtude e letras, que tomou posse da igreja no dia 21 de junho de 1774.

Com o passar do tempo, verificou-se as diminutas forças dos contribuintes da então freguesia de Piracicaba, na sustentação da nova Paroquia, o que levou o Pároco a deixar o posto, em 21 de dezembro de 1776, tornando esta igreja a voltar à paróquia de Itu, situação que perdurou por um espaço de sete anos, cinco meses e, dois dias, até que a providência divina, compadecida por tantos clamores, permitiu que o Reverendo Padre Francisco Thomé de Jesus, religioso franciscano, de idade avançada e exemplar conduta quisesse sujeitar-se às funções de Pároco, com a diminuta quantia anual de 60 mil reis, que os moradores ofereciam, assim, obtendo provisão do Excelentíssimo e Reverendíssimo Prelado. E, em sete de abril de 1684, tomou posse da igreja, em 23 de maio do mesmo ano, com as divisas instituídas, e 203 pessoas de confissão.

Os registros demonstram que o povo ficou animado com a presença de tão zeloso e edificante pastor e conhecendo que o terreno em que estava situado a sua matriz, não era suficiente para uma extensa povoação, a movimentação foi no sentido de transplantar a igreja para a outra margem do rio, abaixo do salto, em lugar mais adequado, alto, plano e não muito distante das margens do rio. Esta proposta de mudança chegou ao conhecimento de Francisco da Cunha e Meneses, Governador e Capitão-Geral da Capitania, no dia seis de junho do mesmo ano, em pleno reinado da Excelsa e Soberana Rainha Senhora D. Maria, a Primeira.

A proposta foi avaliada pelo Governador, que procedeu uma vasta averiguação sobre o melhoramento do terreno para a mudança, no entendimento de que o lugar proposto pelo povo era o mais adequado, e que no seu contorno não se deveria ser desprezado devido às excelentes qualidades estratégicas, onde também favoreceria a projeção da cidade para os campos de Araraquara, aonde muitas fazendas poderiam se estabelecer, dentre elas a do Bacharel José Ribeiro Ferreira.

Por estas circunstâncias convinha a referida mudança ser benéfica tanto ao bem público, como particular da mesma povoação e, ainda do Estado. Assim, foi ordenado, em sete de julho, do mesmo ano, ao Capitão Mor da Vila de Itu, Vicente da Costa Taques Góes e Aranha, que junto com o Capitão Povoador, Antonio Correa Barbosa, se pudesse fazer a mudança da povoação, de onde se achava e situá-la a partir da outra margem do rio Piracicaba até a fronteira com a Barra do Ribeirão (rio Corumbataí), onde o melhor terreno houvesse, como atestava os documentos da época.

MUDANÇA - em função desta decisão governamental, no dia 22, do mesmo ano, Correia Barbosa trouxe em sua companhia o Capitão João Fernando da Costa e Miguel Francisco Paes Soares, mestre entalhador e arruador e, correndo estes com o Capitão Povoador, seus oficiais e a maioria do povo concordaram e se uniram na nova empreitada, consolidando assim a visão do Reverendo Pároco na mudança para o lugar logo abaixo do salto, onde o local, por estar coberto de mato, se processou o lugar para o delineamento da povoação.

E, para registrar as novas determinações, o Capitão Mor, Antonio Correa Barbosa lavrou a documentação em que também teve a assinatura do Reverendo Pároco, Oficiais e o mestre entalhador e arruador, seguido pelo povo, em 30 dias do mesmo mês e ano. Atestam o documento: Thomé de Jesus (Frei – Vigário encomendado por Antonio Correa Barbosa), Miguel Francisco Paes Soares, Vicente da Costa Taques Goes e Aranha, João Fernandes da Costa (Capitão), Antonio da Maya (Alferes), Antonio Vicente Coelho Gomes da Costa, Sebastiam Leme da Costa e Francisco Roiz de Andrade.

FREGUESIA - era uma denominação administrativa e eclesiástica dada a uma povoação dotada de capela curada, com pároco próprio. Politicamente, formava uma unidade territorial sujeita à Cabeça do Termo ou Vila, com autonomia administrativa. A criação da capela curada era privativa das autoridades eclesiásticas e a criação de freguesias competia ao governo provincial.

A freguesia de Piracicaba foi instituída em 1784. Em 29 de julho desse ano dá-se o primeiro batismo em Piracicaba. Devidamente registrado, esta cerimônia vem dirimir dúvidas quanto à época de passagem da povoação ao estado de Freguesia. Havia crescido e já possuía parcos recursos para sustentar por conta própria um pároco, com o que se chamava na época de “côngrua”; não estava mais sem os recursos para que se atendessem as suas necessidades espirituais e os padres que para Piracicaba foram, lá não queriam permanecer.

Francisco da Cunha e Menezes foi o capitão-general da Capitania de São Paulo, de 16 de março de 1782 até 4 de maio de 1786. A fundação do povoamento de Piracicaba dataria, então, de 1764, a contar da nomeação do Capitão Diretor Antônio Corrêa Barbosa, para o cargo de arregimentar povoadores e assentá-los no local.

No início da referida Povoação data de 1º de agosto de 1767, como o Capitão Mor de Itu declara em sua carta de 29 de novembro de 1786. Tinha a povoação, na época, aproximadamente, 17 anos. Comenta-se que o Capitão Diretor de Piracicaba, Antônio Corrêa Barbosa era teimoso, turrão mesmo, que apesar da insistência do Morgado de Mateus em prover como oráculo todas as povoações que fundava no seu governo com o nome da santa de sua devoção (Nossa Senhora dos Prazeres), esse Capitão fez questão fechada de que o oráculo de Piracicaba fosse o Santo de seu nome (Antônio) e assim perdurou a sua vontade, indo de encontro à ordem superior do Capitão-General da Capitania de São Paulo. O “santo” do Capitão Diretor de Piracicaba, no entanto, parecia ser muito forte, pois nada conseguia tirá-lo de seu posto.

PADRES - observa-se que grande foi a luta do Capitão Mor de Itu para fazer com que um pároco permanecesse na Vila de Piracicaba. Além da côngrua (pagamento ao pároco) ser baixa, o Capitão Povoador tinha hábitos e tratamento pessoal difíceis de se tolerar. Inúmeros padres estiveram na Freguesia.

Diferentes abordagens positivas foram elencadas sobre a mudança de local para a outra margem do rio Piracicaba: “Há risco de vida no passar o rio com cargas, trabalho de canoas e perca, sem necessidade alguma. Da igreja já caiu a parede e cairá novamente pois a terra é areenta e está à beira do rio e tem lagoa junto dela, quando há enchente. O salto apresenta abundância de peixes, todo o ano. A nova referência da cidade é excelente, cômoda, terra de boa ligadura para edifícios, sem perigo de atravessar o rio; produz todo o gênero de cultura; produz canas muito doces, touceiras de seis a oito, o mesmo rendimento, o que não acontece nos engenhos de Itu. O local muito sadio, alegre e fértil de caça e pescaria, livre de geadas e excelente para a cultura de cana, algodão e as demais plantações", registram os documentos históricos.

ACHADOS DO ARQUIVO - a série "Achados do Arquivo" se pauta na publicação de parte do acervo do Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, ligados ao Departamento Administrativo, criada pelo setor de Documentação, em parceria com o Departamento de Comunicação Social, com publicações no site da Câmara, às sextas-feiras, como forma de tornar acessível ao público as informações do acervo da Casa de Leis.



Texto:  Martim Vieira - MTB 21.939
Supervisão:  Rodrigo Alves - MTB 42.583
Revisão:  Martim Vieira - MTB 21.939




Câmara

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