30 de janeiro de 2026

No clarão amarelado da História: a cidade entre sombras e lampiões

Destaque da série Achados do Arquivo, texto de Guilherme Vitti relata a disputa pela prestação do serviço público de iluminação em 1881

Quando, devagar, caía a noite sobre a pacata Piracicaba naquele início da década de 1880, os lampiões a querosene afixados nos postes eram acesos, iluminando, assim, as ruas noturnas da cidade. 

Hoje rudimentar, esse tipo de iluminação pública, com o uso de lampiões a querosene, foi o primeiro da história de Piracicaba, e vigorou por quase vinte anos. Sua utilização teve início em 1874 e perdurou até 1893, quando a luz elétrica chegou à cidade. 

Num ponto temporal localizado entre esses marcos de início e fim da era dos lampiões, mais especificamente no começo de 1881, a Câmara Municipal, a fim de garantir a continuidade dos serviços de iluminação pública em Piracicaba, deliberou sobre propostas recebidas que tratavam sobre a execução dos trabalhos de iluminação para a cidade. 

O teor dessas propostas e como a Câmara lidou com elas foi o tema abordado no texto “Meio a meio na iluminação pública...”, escrito pelo professor Guilherme Vitti e que é tema desta edição dá série “Achados do Arquivo – Memórias de Um Arquivo”.

Jogando luz sobre o assunto, assim escreveu mestre Vitti:

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“Meio a meio na iluminação pública...

No ano de 1881, em que a maioria dos piracicabanos de então nem sabiam da existência da luz elétrica, a Câmara Municipal andava às voltas com a seleção da melhor proposta para a iluminação da cidade, feita por meio do malcheiroso querosene. 

O negócio devia apresentar suas vantagens, pois, nada menos do que 5 interessados se apresentaram: Joaquim Alves de Abreu; Cândido Bueno de Camargo; Bellarmino Leite do Canto; Marcelino Ribeiro de Oliveira e Antônio Ferreira de Albuquerque. 

Escreveu o primeiro, em estilo seco e direto: 

‘Ilmos. Srs.
O abaixo-assinado propõe-se a contratar com a Câmara Municipal a iluminação desta cidade, fazendo-a por menos do que a menor proposta cento e dez réis, nunca descendo a menos de três mil e duzentos réis por lampião e por mês.
Piracicaba, 7 de fevereiro de 1881.
Joaquim Alves de Abreu’.

Perceberam os leitores a proposta marota do nosso Joaquim. Quer vencer o negócio a qualquer custo!

Na margem direita do original, o presidente da Câmara, ou algum dos vereadores, fez a continha de multiplicar para ter a ideia aproximada da despesa total. Por ela sabe-se que o número de lampiões era de cem (100). Quais seriam as ruas e largos beneficiados? Provavelmente o edital de concorrência determinasse os locais da iluminação, mas, onde estará ele?

Proposta de Cândido Bueno de Camargo:

‘Ilmos. Srs. Presidente e membros da Câmara Municipal:
Cândido Bueno de Camargo, residente nesta cidade, vem, perante esta ilustríssima Câmara, fazer sua proposta para tratar da iluminação pública desta cidade nos termos seguintes:
O abaixo-assinado se propõe a tomar conta da empresa da dita iluminação, acendendo os mesmos todas as noites escuras, na forma do costume, por menos de qualquer outra proposta que aparecer por menos cem réis em cada lampião e comprometendo-se a dar, à sua custa, os novos postes que esta ilustríssima Câmara precisar para novos lampiões que mandar fazer e que forem se colocando em outros pontos da cidade.
Piracicaba, 8 de fevereiro de 1881.
Cândido Bueno de Camargo’.

Percebe-se, facilmente, ser esta proposta muito mais ampla e minuciosa e, em certo sentido, mais vantajosa, pois apresenta a gratuidade dos postes novos, que forem necessários. Há, apenas, um senão grave. É de ver-se que os lampiões, nas noites de luar, ficariam apagados. Boa economia mensal teria o nosso experto Cândido, sem nada de cândido no negócio...

O terceiro proponente, Belarmino Leite do Canto, então zelador interino da iluminação pública, propõe-se executar o serviço mensal a três mil, setecentos e cinquenta réis o lampião e cem réis a menos da menor proposta dos demais. Em sua proposta confirma-se a existência de cem lampiões na cidade, com o acréscimo do lampião da cadeia, este pelo preço de dez mil réis, já que ele ficava aceso durante toda a noite, enquanto que os demais eram apagados antes da meia-noite.

Marcelino Ribeiro de Oliveira, o quarto interessado, apresenta o preço de três mil e quatrocentos réis por lampião e dez mil réis o da cadeia.

O último proponente, Antônio Ferreira de Albuquerque, oferece o preço de três mil, trezentos e oitenta réis mensais por lampião e dez mil réis pelo do da cadeia.

As decisões tomadas pela Câmara eram lavradas à margem da proposta dos interessados, ou no verso do papel. Como todas elas não apresentam nenhum despacho, conclui-se não terem agradado à Câmara. E isto se confirma logo adiante, pois nova concorrência foi aberta em princípios de 1882.

Duas anotações merecem destaque neste assunto. Os leitores podem observar que os interessados são todos de sobrenomes portugueses, com influência do sotaque de Portugal. Haja visto o uso da preposição ‘a’ antes do infinitivo verbal. Com exceção dos sobrenomes alemães, raros são os de outros estrangeiros até a proclamação da República, quando, então, se nota a avalanche dos itálicos e espanhóis.

Observação válida para os artigos que se seguirão: nas transcrições dos documentos usaremos a ortografia atual, respeitada a sintaxe e outras características, a fim de não induzirmos ninguém a errar um pouco mais no seu já fraco potencial ortográfico”.


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Do texto de Vitti, além do tema central da iluminação, depreendem-se algumas informações valiosas sobre a paisagem urbana, o perfil dos habitantes e um aspecto da dinâmica de trabalho da Câmara.

A Piracicaba de 1881 era iluminada por cem lampiões; entre os moradores, além dos negros infelizmente ainda escravizados, predominavam os de origem portuguesa e alemã, sendo que oriundos de outros países só chegariam a partir da década seguinte; e os vereadores anotavam as decisões tomadas diretamente na folha que continha a proposta, numa espécie de “despacho” na lateral ou no verso do papel.

As palavras do professor Guilherme, juntamente com os documentos do Acervo Histórico da Câmara, possibilitam um vislumbre da cidade há mais de um século no passado; mais precisamente há 145 anos atrás.

Achados do Arquivo — A série "Achados do Arquivo" é uma parceria entre o Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, ligado ao Departamento Administrativo, e o Departamento de Comunicação Social da Câmara Municipal de Piracicaba, com o objetivo de divulgar o acervo que está sob a guarda do Legislativo. As matérias são publicadas às sextas-feiras.

Texto: Bruno de Oliveira
Revisão: Erich Vallim Vicente - MTB 40.337
Pesquisa: Bruno de Oliveira