16 de janeiro de 2026
Carlos Botelho: avenida nasceu há 120 anos para levar Piracicaba à Esalq
Atas e ofícios da Câmara registram a abertura, o nivelamento e a homenagem a Carlos Botelho; criação da via acompanha a consolidação da Esalq e a expansão urbana
Discretamente charmosa a avenida, com suas dimensões relativamente pequenas, tendo duas estreitas faixas em cada lado do canteiro gramado com palmeiras.
Tradicional via de bares, restaurantes, lojas e agências bancárias. Rota de acesso à cidade, seja pra quem chega pela rodovia Luiz de Queiroz ou pros que chegam pelas estradas de Limeira, Rio Claro ou São Pedro.
Uma espécie de prolongamento da rua Santa Cruz, seu trajeto reto com pouco mais de um quilômetro termina no cruzamento com a avenida Centenário, beirando os limites do campus da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz).
Essa é a avenida Carlos Botelho.
A via pública em si, a universidade e a pessoa cujo nome é homenageado no título da via —Carlos Botelho—, estão intrinsecamente ligados à história e na história de Piracicaba, através dos documentos do Acervo Histórico do Setor de Gestão de Documentação e Arquivo da Câmara Municipal de Piracicaba.
O local em que hoje está a Esalq era, no século 19, a Fazenda São João da Montanha, cujo terreno foi doado ao estado por Luiz de Queiroz a fim de que na área fosse construída uma Escola Agrícola.
Em junho de 1901 a escola é instalada. Porém, sua estrutura ainda não estava a contento. Então, no ano de 1905, o presidente do Estado de São Paulo Jorge Tibiriçá e o secretário de Agricultura, Carlos Botelho, empreendem esforços para a conclusão dos espaços, terminando o edifício principal, reformando a casa do diretor e construindo o parque que circunda a escola. À época, o cargo de presidente do Estado equivalia ao atual cargo de governador.
Com as aulas a todo vapor, há um aumento no afluxo de pessoas em direção à escola —principalmente estudantes e professores—, e isso gerou a necessidade de se abrir uma via que ligasse a cidade, à época limitada à região central, às dependências da nova escola. Assim, no início de 1905, no dia 6 de fevereiro, a Câmara aprova lei dispondo sobre “a abertura das ruas da Misericórdia e de Santa Cruz até as divisas da Fazenda São João da Montanha”, nos seguintes termos:
“Art. 1º - Fica a Intendência Municipal autorizada a mandar abrir as ruas da Misericórdia e de Santa Cruz até as divisas da Fazenda São João da Montanha.
Art. 2º - Fica autorizada a construção de uma linha de bonde por conta do Governo do Estado, partindo do ponto mais conveniente na cidade até a Escola Agrícola, passando pelas ruas da Misericórdia e de Santa Cruz.
Art. 3º - Revogam-se as disposições em contrário”.
A então rua da Misericórdia é a atual José Pinto de Almeida; e a Santa Cruz é a tradicional Santa Cruz dos dias que correm.
Seis meses depois da autorização para a abertura da nova via, a fim de dar agilidade às obras, o secretário de Agricultura, Carlos Botelho, entrou em contato com a Câmara Municipal para tratar do assunto, como relata a ata da Sessão Ordinária de 7 de agosto de 1905:
“Tendo o dr. secretário de Agricultura mandado fazer o orçamento do nivelamento da rua nova que vai à Escola Agrícola ‘Luiz de Queiroz’, para o assentamento de uma linha de bonde e tendo declarado que se a Câmara Municipal contribuísse com um auxílio qualquer, faria imediatamente o assentamento dessa linha de bonde”.
A ata registra que, de imediato, a Câmara resolveu dar sua contrapartida, por intermédio de proposta apresentada pelo vereador Fernando Febeliano da Costa:
“Considerando que com esse serviço muito lucrará a Câmara, que ficará com essa rua preparada, apresento o seguinte projeto:
Art. 1º - A Câmara auxiliará o Governo no nivelamento projetado na rua nova que vai à Escola Agrícola ‘Luiz de Queiroz’, com a quantia de 6:000$000.
Art. 2º - A despesa correrá por conta da verba de ‘Obras Públicas’.
Art. 3º - Revogadas as disposições em contrário”.
Quase dois meses depois, na Sessão Ordinária de 2 de outubro, o projeto é aprovado em primeira discussão e, em 6 de novembro, é editado em sua forma definitiva.
Assim, com o valioso apoio do sr. Carlos Botelho, a via seria nivelada.
Como já dito, o apoio de Botelho foi importante não só para o nivelamento da via que serviria à Escola Agrícola, mas também para a conclusão e funcionamento de fundamentais equipamentos internos da escola.
Esse ativo envolvimento de Carlos Botelho com a “Luiz de Queiroz” despertou na Câmara Municipal o desejo de homenageá-lo.
Na sessão de 7 de agosto, a mesma em que foi proposto o valor para o nivelamento, o vereador Fernando Febeliano da Costa apresentou o seguinte:
“Tomando em consideração os relevantes serviços que o dr. Carlos Botelho está prestando ao nosso município, como secretário de Agricultura, proponho que a Câmara Municipal dê o nome de ‘Avenida Carlos Botelho’ à rua que a Câmara mandou abrir agora a que vai ter à Escola ‘Luiz de Queiroz’”.
A proposta de homenagear Botelho dando o seu nome à nova via recebeu parecer favorável da Comissão de Polícia e Higiene na Sessão Ordinária de 2 de outubro, conforme registra a ata:
“A Comissão de Polícia e Higiene, tendo em vista os reais serviços que Piracicaba vai auferir da administração do atual sr. dr. secretário de Agricultura do Estado e os esforços por ele empregados com o fim de elevar e engrandecer sua terra natal, é de parecer que se dê à rua que vai ter à Escola ‘Luiz de Queiroz’ o nome de ‘Avenida Carlos Botelho’”.
Nessa mesma sessão o projeto foi aprovado em primeira discussão.
A aprovação em segunda e última discussão se deu na Sessão Ordinária do dia 23 de outubro, tendo sido editado como norma, de forma definitiva, no dia 6 de novembro, em forma de Resolução.
Já em dezembro, na primeira Sessão Ordinária do mês, realizada no dia 4, a ata registra que a Câmara recebeu um ofício, assinado pelo sr. Carlos Botelho, em que agradecia pela verba para o nivelamento da nova via, bem como pela homenagem a ele prestada.
O ofício, com timbre da Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, numerado como 538 e com data de 24 de novembro de 1905, traz o seguinte teor:
“Sr. Intendente Municipal de Piracicaba
De posse do ofício nº 238, de 4 do corrente, em que me comunicais ter a Câmara Municipal dessa cidade decretado a verba de 6:000$000, para o nivelamento da nova rua que vai ter à Escola Agrícola ‘Luiz de Queiroz’ e assentamento de uma linha de bonde, tendo a mesma Câmara resolvido dar o meu nome àquela rua, cumpro o grato dever de agradecer essa manifestação de estima, pedindo-vos façais intérprete de minha gratidão perante àquela Câmara.
Saúde e fraternidade”.
Piracicabano, Carlos Botelho nasceu há pouco mais de 170 anos, em 1855. Foi vereador em Piracicaba de 1877 a 1889. Após ser nomeado secretário de Agricultura em 1904, deu especial atenção à Escola Agrícola Luiz de Queiroz, tendo sua atuação indo além das ações citadas neste texto. Durante sua gestão na pasta da Agricultura, criou na escola o posto zootécnico, as oficinas de ferreiro, carpinteiro e serralheiro; assentou descascadores de algodão, prensa hidráulica e outras máquinas; e construiu a leiteria, o apiário, a horta, o pomar e o parque. Em 1940 recebeu uma das últimas homenagens em vida: foi escolhido paraninfo dos formandos da Esalq daquele ano. Faleceu em 1947, aos 91 anos.
A hoje Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), antiga Escola Agrícola, está em plena atividade, prestes a completar 125 anos, mantendo boa parte da estrutura e da dinâmica criadas por Botelho.
E a via aberta e denominada há 120 anos continua servindo não só como caminho para a Esalq, mas como pujante artéria viária e comercial da cidade. A então recém-aberta e pacata avenida Carlos Botelho do início do século 20, ainda existe com o seu traçado original, porém, hoje, já passado um quarto do século 21, exibe-se, transformada, aos passantes, como a tradicional e sempre moderna Avenida Carlos Botelho.
Achados do Arquivo — A série "Achados do Arquivo" é uma parceria entre o Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, ligado ao Departamento Administrativo, e o Departamento de Comunicação Social da Câmara Municipal de Piracicaba, com o objetivo de divulgar o acervo que está sob a guarda do Legislativo. As matérias são publicadas às sextas-feiras.
Supervisão: Rodrigo Alves - MTB 42.583
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