22 de janeiro de 2026

De Piracicaba às Olimpíadas: o início da geração de ouro do basquete feminino

Em janeiro de 1986, a Unimep conquistou o bicampeonato estadual consecutivo da modalidade; período marca a ascensão das atletas que chegaram ao pódio de Atlanta 96

Há 40 anos, Piracicaba explodia em alegria e comemoração. A equipe de Basquete Feminino da Associação Desportiva Unimep conquistava, em 26 de janeiro de 1986, o Campeonato Paulista Estadual da Divisão Especial. Essa vitória é uma das marcas de um relevante período do esporte, tanto em Piracicaba, quanto no Brasil, afinal, representa a ascensão da modalidade, que culminaria, 10 anos depois, na histórica conquista da medalha de prata nas Olimpíadas de Atlanta. 

Para rememorar a data, a Câmara Municipal de Piracicaba, por meio do Setor de Documentação e Arquivo, traz a público 87 fotos, de autoria de Davi Negri, que registram tanto o jogo final quanto as comemorações pela cidade. As fotografias foram identificadas com a ajuda da jogadora Magic Paula, uma das principais jogadoras daquele time, e a quem o setor deixa um grande agradecimento.

Assim, a série ‘Achados do Arquivo’ desta semana, tal como uma partida de basquete, se dividirá em quatro partes (ou tempos) – Preparação, Pré-Jogo, Jogo e Pós-Jogo – com o objetivo de relembrar como foi a conquista deste título. 

1º Quarto (Preparação) – É impossível desvincular a conquista do Campeonato Paulista em 1986 de um importante fato que ocorrera anos antes: A criação da Associação Desportiva Unimep. Derivada de parceria entre o Poder Executivo piracicabano e a Universidade Metodista de Piracicaba – representados respectivamente pelo prefeito João Herrmann Neto e o reitor Elias Boaventura –, a associação iniciou seus trabalhos em 1979, tendo por finalidade o incentivo ao esporte na cidade. 

Apesar de ser um projeto para todas as modalidades esportivas, foi o basquete feminino que mais se destacou, entrando em um período de plena evolução. Fato que tem duas personagens merecedoras de mérito: Maria Helena Cardoso e Maria Helena Campos, ou conhecidas como Maria Helena e Heleninha, ou, carinhosamente como Dona e Doninha. Ex-jogadoras profissionais de basquete, com um vasto currículo de conquistas, como técnicas estivem à frente da comissão da Unimep desde o início, e foram as responsáveis por formar a equipe que se tornaria campeã. 

2º Quarto (Pré-Jogo) – Em 1985 dava-se início ao Campeonato Paulista Estadual de Basquete Feminino da Divisão Especial. A Unimep destacava-se como uma das grandes favoritas, afinal, era considerada uma das melhores equipes do Brasil e estava ali como a campeã do ano anterior, em busca do bicampeonato consecutivo. 

Nas fases iniciais, que ocorreram durante o ano, quatro equipes se classificaram Unimep (Piracicaba), Prudentina (Presidente Prudente), Pirelli (Santo André) e Minercal (Sorocaba). A Associação Desportiva Unimep conquistou, invicta, a primeira posição da classificação, o que garantiu uma vantagem na fase seguinte – forçar um jogo extra no caso de terminar as finais em segundo lugar. 

No início do ano seguinte, em janeiro de 1986, foram disputados os primeiros jogos das finais do Campeonato Paulista Estadual de Basquete Feminino da Divisão Especial. Sobre a campanha do time piracicabano nessa etapa, o jornal ‘O Estado de São Paulo’, de 12 de janeiro de 1986, registra: 

A Unimep é a única equipe invicta no Estadual. Porém nos jogos das finais mostrou uma certa irregularidade. No primeiro jogo venceu com facilidade a boa equipe da Pirelli por 92 a 64 (48 a 36). Na partida seguinte encontrou muitos problemas diante da Prudentina. Começou o jogo perdendo e só reagiu nos últimos 10 minutos, quando marcou 85 a 76, após ter perdido o primeiro tempo por 41 a 42. – Nesses dois jogos, a Unimep marcou 177 pontos, sofreu 140 e teve um saldo de 37 pontos. Campanha mais tranquila e convincente apresentou a Minercal. Também obteve duas vitórias, com 194 pontos a favor, 121 contra, e um saldo de 73 pontos”.

Apesar dos pequenos ‘percalços’, como antecipado por muitos, Unimep e Minercal decidiriam a final do campeonato. As duas melhores equipes de basquete feminino do país da época se enfrentariam no dia 18 de janeiro, se a Unimep vencesse, garantiria o título como o único time invicto na competição, já a Minercal, precisaria ganhar para forçar a realização de um jogo extra, que definiria a campeã. 

E foi o que aconteceu, a Minercal derrotou a Unimep por 99 a 94 (55 a 49), naquele sábado à noite, no ginásio do Ibirapuera. A decisão do título ficou assim adiada para o final de semana seguinte.

Os jornais do período estampavam as expectativas para o jogo, destacando sempre o esperado confronto entre Paula e Hortência, jogadoras que, à época, defendiam, respectivamente, a Unimep e a Minercal. O duelo entre as irmãs gêmeas Vânia Hernandes (Unimep) e Vanira Hernandes (Minercal) também teve lugar nas páginas de notícias. Os periódicos trazem inclusive algumas curiosidades, como, por exemplo, o fato das jogadoras Neusinha e Branca terem que prestar o vestibular para a Universidade Metodista de Piracicaba na manhã do mesmo dia marcado para decisão. 

3º Quarto (O Jogo) – Domingo, dia 26 de janeiro de 1986, 16 horas e 30 minutos, ginásio do Ibirapuera, começava o confronto final. O duelo não estava apenas na quadra, mas também nas arquibancadas. As torcidas encheram o local. Por Piracicaba, com auxílio da prefeitura, as torcidas Dragões e Falange Vermelha lotaram 43 ônibus para acompanhar a decisão, que contava também com delegações de Americana, Santa Bárbara D’Oeste, Indaiatuba e Campinas. 

Fazer uma locução exata da partida é uma missão notoriamente impossível, afinal memórias de quatro décadas são falhas e imprecisas e, infelizmente, não se teve acesso a uma gravação, em áudio ou vídeo, da partida. 

Sabe-se, a partir de registros em jornais, que o time da Unimep chegou a ficar com 12 pontos de desvantagem, mas conseguiu virar, consagrando-se campeã da partida por 91 a 86. Vitória na qual cada jogadora teve um papel fundamental. Magic Paula foi a cestinha da equipe, marcando 32 pontos na partida, seguida por Nádia (19 pontos), Vânia Teixeira (15 pontos) e Vânia Hernandes (14 pontos). A atuação de Branca foi registrada como decisiva, ao tirar duas bolas de Hortência nos momentos finais do jogo. O desempenho de Neusinha também foi elogiado nos periódicos, que classificaram a sua marcação na defesa como ‘perfeita’.

Na sequência, uma passagem de matéria publicada no jornal ‘Folha de São Paulo’, no dia subsequente, que permite um vislumbre de como foi aquela tarde. 

“‘A Unimep não tem apenas cinco jogadoras. Tem uma equipe de basquete. Tem doze jogadoras’. Aparentemente uma declaração sem nada de excepcional. Quem a pronunciou foi Nádia, armadora da Unimep, ainda chorando após a vitória do seu time por 91 a 86 (48 a 40) sobre a Minercal, ontem à tarde, no ginásio do Ibirapuera, zona sul de São Paulo, na decisão do Campeonato Estadual Feminino de Basquete da Divisão Especial. – As palavras de Nádia, no entanto, expressam exatamente o fator decisivo da vitória e consequentemente conquista do título de bicampeã pela Unimep. Com um elenco mais equilibrado, a Unimep pôde revezar jogadoras durante a partida sem perder o ritmo, cansou menos e jogou vantagem os minutos finais. – Depois da derrota de 99 a 94 sofrida na semana anterior, a Unimep mudou seu plano de jogo. Ontem procurou pressionar mais a equipe adversária desde o início da partida, por determinação da treinadora Maria Helena, que esperava tirar proveito do cansaço das jogadoras da Minercal no final. Mas houve precipitação do time e a Minercal chegou a ficar à frente no marcador por 18 a 6. Maria Helena pediu um tempo e acalmou seu time, que empatou em trinta pontos, para depois terminar o primeiro tempo liderando o marcador por 48 a 46”.

Toma-se aqui a liberdade de acrescentar uma passagem na bela declaração de Nádia. Em 1986 a Associação Desportiva Unimep tinha uma delegação de basquete, formada pelas jogadoras Magic Paula, Branca, Vânia Teixeira, Vânia Hernandes, Nádia, Neusinha, Ana Fofão, Anne, Bárbara, Maria Moret, Mônica, Márcia, Carminha e Betinha. E uma comissão técnica formada por Maria Helena, Heleninha, Suka, Markão, Marreco, Vagner Bergamo, Mugão e Adalberto Maluf. Foram essas as pessoas responsáveis pela conquista do Campeonato Paulista Estadual de Basquete Feminino da Divisão Especial de 1985, cuja a final ocorreu naquele domingo, 26 de janeiro de 1986. 

4º Quarto (Pós-Jogo) – Com o apito final da partida e a taça devidamente erguida em um Ibirapuera lotado, começaram as comemorações. A delegação da Unimep passou a noite de domingo em São Paulo e, segundo consta, fez uma celebração na Boate Roof, no bairro dos Jardins. No dia seguinte, 27 de janeiro de 1986, as jogadoras e a comissão técnica seguiram para Piracicaba e ao meio-dia chegaram, para assim festejar junto à população da cidade que representavam.

Em um carro aberto do Corpo de Bombeiros, partindo da avenida Cássio Paschoal Padovani, a delegação desfilou pela cidade, sendo acompanhada por carros, motos, bicicletas e pedestres. A ‘carreata’ passou por ruas como a Boa Morte e a Governador Pedro de Toledo, em um trajeto que durou aproximadamente duas horas e terminou no Campus da Universidade Metodista, onde o reitor Elias Boaventura saudou as bicampeãs paulistas.

Estendendo o “Pós Jogos” para anos posteriores, em 1987, em uma nova final contra a Minercal, a Unimep se tornaria tricampeã consecutiva do campeonato paulista. Em âmbito nacional, também não faltaram motivos para comemorar. A dupla Maria Helena e Heleninha passaria a comandar a Seleção Brasileira de Basquete Feminino, alcançando títulos memoráveis. Paula e Hortência passariam de rivais das quadras para aliadas que, junto com outras inesquecíveis jogadoras, colocaram o Brasil em pódios nunca antes conquistados.

As fotos de 1986 não são apenas registros de um jogo e de uma comemoração, são recordação visuais de pessoas que tiveram um papel fundamental na ascensão do basquete feminino brasileiro. Trazer estas fotos a público não é apenas um modo de celebrar os 40 anos da conquista do Campeonato Paulista Estadual da Divisão Especial, mas também de rememorar outros grandes feitos, afinal, em 2026 completam-se os 35 anos da memorável conquista dos Jogos Pan-Americanos de Havana, em 1991, onde o próprio Fidel Castro entregou a premiação. Completam-se também 30 anos da histórica medalha de prata Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996.

E por que não celebrar também os 34 anos da primeira classificação da Seleção Brasileira de Basquete Feminino para um Olimpíada, em 1992, e os 32 anos da inédita conquista do Campeonato Mundial, na Austrália, em 1994. Afinal, feitos como esses não precisam de anos redondos para serem celebrados.

Achados do Arquivo — A série "Achados do Arquivo" é uma parceria entre o Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, ligado ao Departamento Administrativo, e o Departamento de Comunicação Social da Câmara Municipal de Piracicaba, com o objetivo de divulgar o acervo que está sob a guarda do Legislativo. As matérias são publicadas às sextas-feiras.

Texto: Giovanna Felini Calabria
Revisão: Erich Vallim Vicente - MTB 40.337
Pesquisa: Giovanna Felini Calabria