15 de maio de 2026

Maio de 2006: há 20 anos, medo de ataques do PCC paralisou a cidade

Série ‘Achados do Arquivo’ relembra cancelamento da reunião ordinária da Câmara por medo da violência do crime organizado

Como um depoimento feito a uma CPI na Câmara dos Deputados, em Brasília, no dia 10 de maio de 2006 resultou, cinco dias depois, na suspensão das atividades rotineiras da Câmara Municipal de Piracicaba? 

A cascata de acontecimentos decorridos após esse depoimento, que culminou na interrupção do cotidiano da cidade de Piracicaba e no fechamento da Câmara, em particular, é o tema desta edição da série “Achados do Arquivo”. 

Naquele 10 de maio, uma quarta-feira, dois integrantes da Polícia Civil do Estado de São Paulo, Godofredo Bittencourt, diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), e Ruy Ferraz Fontes, delegado, prestaram depoimento na CPI instaurada na Câmara dos Deputados para investigar o tráfico de armas. No depoimento, Godofredo informou que o governo paulista tinha conhecimento de que a facção PCC (Primeiro Comando da Capital) estava preparando uma megarrebelião no sistema prisional, para o dia 14 de maio, Dia das Mães e, como medida de prevenção, transferiu 765 presos para a penitenciária de segurança máxima de Presidente Wenceslau.

Ocorre que uma cópia desses depoimentos foi vendida, por 200 reais, por um funcionário da empresa terceirizada que realizava os serviços de gravação a dois advogados de presos pertencentes à organização criminosa. Rapidamente, o teor da gravação chegou às lideranças do PCC e, logo, todas as penitenciárias estavam informadas dos planos do governo. Então, o comando da facção passou a organizar, dentro e fora dos presídios, uma ação contra o Estado para conter as transferências dos presos. 

Um “salve” – uma ordem dada de dentro da cadeia – é emitido para que sejam atacados agentes de segurança. Entre os dias 11 e 12 de maio, líderes do PCC, dentre eles Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, são transferidos para o prédio do Deic, na capital.

Na madrugada do dia 12 acontecem os primeiros ataques, que atingem policiais civis, militares, agentes penitenciários e civis, totalizando 10 mortes. Foram alvejados 11 distritos policiais da cidade de São Paulo, da Região Metropolitana e do interior. Estouram duas rebeliões, com reféns, em penitenciárias e cadeias públicas em todo o estado. 

No sábado, 13 de maio, continuam os ataques à polícia, se estendendo a outros municípios do interior. Ocorrem 52 ataques, 54 mortes e 27 rebeliões. No dia seguinte, domingo de Dia das Mães, os ataques se intensificam. O número de mortes vai para 82, os ataques sobem a 93 e as rebeliões já contam 53, com 383 reféns e 30 mortos. O total de presos amotinados chega a 77.000 -- 60% da população carcerária do estado. São atacados prédios onde se encontram agências bancárias. Cerca de 30 ônibus são incendiados. 

O dia 15 de maio, segunda-feira, foi o dia de maior intensidade de violência. Foram 116 ataques, 117 mortos. As rebeliões atingem 82 penitenciárias, com 81 reféns e 17 mortos. Na madrugada desse dia, o PCC atacou ônibus, fóruns, agências bancárias e caixas eletrônicos. No final da manhã começaram a circular rumores de que os ataques estavam alcançando alvos de forma indiscriminada, especialmente áreas com elevada concentração de pessoas, como terminais de ônibus, metrô e trens, universidades e órgãos públicos.

Os rumores foram aumentando, o que alimentou o pânico na população. Pais correram para buscar os filhos nas escolas, que, por sua vez, suspenderam as aulas. Concessionárias de transporte coletivo deixaram de operar os veículos. O comércio fechou as portas. Empresas dispensaram funcionários mais cedo. Ruas habitualmente movimentadas ficaram desertas.

Esse cenário não ficou restrito a capital paulista. Atingiu também as cidades do interior, Piracicaba entre elas. A Unimep – Universidade Metodista de Piracicaba dispensou os alunos e suspendeu as aulas. Os distritos policiais montaram “barricadas” de viaturas nas calçadas. O Corpo de Bombeiros da Avenida Independência fez o mesmo. E a Câmara Municipal suspendeu seu expediente diário e dispensou todo seu corpo funcional.

Naquela fria segunda-feira, por volta da hora do almoço, o presidente da Câmara, vereador Gustavo Herrmann, juntamente com outros integrantes da Mesa Diretora e com os diretores de departamento, convocou todos que estavam trabalhando na Casa no momento para uma reunião no Plenário.

Gustavo explanou sobre os acontecimentos, ressaltou a tensão que envolvia a todos, dispensou funcionários, assessores, estagiários e terceirizados e aconselhou a seguirem direto para casa, a não ficarem pelas ruas sem motivo. Os rumores poderiam ser só rumores. Mas o medo era palpável.

Imediatamente todos foram embora. A Câmara fechou suas portas. A única pessoa que ficou na Casa foi o guarda de turno daquele dia que, aliás, redobrou a atenção e recebeu o apoio de viaturas da corporação, que ficaram estacionadas na calçada em frente ao prédio. Como era segunda-feira, quando acontecem reuniões ordinárias, acabou que a 27ª sessão daquele ano não ocorreu em 15 de maio, data regimentalmente prevista para ocorrer. Devido aos acontecimentos do dia e ao medo generalizado, a Câmara suspendeu os trabalhos diários e fechou as portas no meio do expediente. 

E a não realização dessa sessão foi registrada pelo servidor do Departamento Legislativo, Sandro Alves Silveira, no Siave, sistema de gerenciamento e consulta de processo legislativo. O registro está disponível no site da Câmara e tem o seguinte teor:

“Justificativa de não realização da Vigésima Sétima Reunião Ordinária no dia quinze de maio de 2006. Sessão Legislativa: 02. Biênio: 01/06. Secretário: Antonio Oswaldo Storel. Presidente: Gustavo Ranzani Herrmann.”

A 27ª Reunião Ordinária aconteceu três dias depois, na quinta-feira, 18 de maio, já com os ataques perto do fim.

Em casos de força maior, em que não é razoável a realização da reunião ordinária, o presidente da Câmara abre a sessão, anuncia que a Pauta da Ordem do Dia está adiada e encerra a reunião. Nesse dia não foi o que aconteceu. Devido à tensão, ao medo, não tinha clima para vereadores e funcionários se dirigirem ao prédio da Câmara só para abrir e encerrar a sessão em meros 15 minutos. Esse não foi um caso em que a pauta foi adiada. Foi um caso de não realização de reunião ordinária, bem como de nenhum outro ato de formalidade relativo ao momento.

Somente em circunstâncias muito excepcionais a Câmara suspende seu expediente ou cancela uma reunião ordinária. Há casos que podem ser classificados como previsíveis, como o falecimento de algum vereador ou funcionário, ou mesmo dias de jogos da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo. Nas últimas duas décadas, houve somente três casos que não figuravam no rol comum de previsibilidade: as manifestações de junho de 2013, a pandemia da Covid-19, em 2020, e os ataques de maio de 2006.

Neste maio de 2026, os “Ataques do PCC”, como aquele fato ficou conhecido, completa 20 anos e marcam aquele 15 de maio em 2006 como um dos dias mais lamentavelmente atípicos na história da Câmara Municipal de Piracicaba.

Achados do Arquivo — A série "Achados do Arquivo" é uma parceria entre o Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, ligado ao Departamento Administrativo, e o Departamento de Comunicação Social da Câmara Municipal de Piracicaba, com o objetivo de divulgar o acervo que está sob a guarda do Legislativo. As matérias são publicadas às sextas-feiras.

Texto: Bruno de Oliveira
Supervisão: Rodrigo Alves - MTB 42.583
Revisão: Erich Vallim Vicente - MTB 40.337
Pesquisa: Bruno de Oliveira