17 de abril de 2026
Achados do Arquivo traz registros da Piracicaba de 1881
Compilado de três textos de autoria do professor Guilherme Vitti é tema da série Memórias de um arquivo
Andando pela Praça da Matriz, os senhores Araújo, Almeida e Morais conversam sobre as atualidades.
A fim de descansar as pernas e tomar um ar fresco, sentam-se em um dos bancos, embaixo de uma árvore. Deixando de lado os assuntos gerais, começam a falar de si mesmos. De tópicos de suas vidas pessoais. Araújo, que é o novo proprietário de uma farmácia, relata que está aguardando licença para poder continuar com a farmácia que herdou do sogro; Almeida, que é promotor público, fala que solicitou um lugar apropriado para a realização de exames médicos e autópsias; e Morais, que é subdelegado, revela a situação insólita em que se encontra: pagou adiantado o valor de uma multa que ainda não tomou, mas que tem certeza de que vai tomar.
Não há registros de que a cena acima tenha acontecido. Mas era perfeitamente possível que tivesse lugar na pacata Piracicaba de 1881.
Os assuntos que envolvem esses três personagens retratam uma pequena parte do cotidiano daquela época na cidade e foram tema de um compilado de três textos de autoria do professor Guilherme Vitti, que é publicado nesta edição da série “Achados do Arquivo – Memórias de um arquivo”.
Os textos são os seguintes: “Um ofício de gozação”, “Sobre cadáveres e...farmácias” e “Farmácia Piracicabana, botica respeitável”.
Abaixo, os conteúdos dos três:
“Um ofício de gozação
Henrique Pedroso de Camargo Morais, genro do Dr. Manoel de Moraes Barros, irmão do Dr. Prudente de Moraes, por causa de encrencas com certo cidadão, nomeado inspetor de estradas, deixou pagas antecipadamente as multas que, com toda a certeza, seu rancoroso inimigo iria impor-lhe.
Eis a transcrição do original:
‘Ilmos. Srs.
Comunico a V. Sas. que deixo em poder de meu sogro, o Dr. Manoel de Moraes Barros, a quantia necessária para pagar a multa, que tem de ser-me imposta, por causa da fatura da estrada da Serra Negra, visto ter sido mandado desta cidade, para lá servir de inspetor, o mesmo cidadão que, no ano de 1879, ostentosamente promoveu desobediência às posturas e ordens da Câmara de então, que eu, como inspetor, tratava de cumprir, sendo, por isso, processado, condenado e punido. Contando, assim, certo ser também multado, desde já ponho à disposição de V. Sas. a importância dessa multa.
Deus guarde a V. Sa. por muitos anos.
Piracicaba, 6 de maio de 1881.
Henrique Pedroso de Camargo Morais
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Sobre cadáveres e... Farmácias
Um promotor público adiantado, o sr. A. J. Fernandes de Almeida.
Cuidou de conseguir ambiente próprio para bem exercer as atribuições de seu cargo. Vejamos:
‘Promotoria Pública de Piracicaba, 10 de agosto de 1881.
Ilmos. Srs.
Sendo de reconhecida necessidade haver nesta cidade um lugar convenientemente preparado para os exames médicos e cirúrgicos de indivíduos feridos e cadáveres que reclama autópsias, em nome da justiça pública e como seu órgão, venho pedir a V. Sas. hajam sem demora deliberar a satisfação dessa necessidade, indicando-lhes para o dito fim a própria casa do cemitério, onde, com pequeno dispêndio, se conseguirá uma sala cômoda, e onde se ache uma mesa própria para o trabalho cirúrgico em cadáveres, uma caixa de ferros respectivos e muito necessários, água, bacias etc.
O Promotor Público – A. J. Fernandes de Almeida’
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Farmácia Piracicabana, botica respeitável
E já que estamos falando em defuntos, nada há mais ligado a eles do que as casas de remédios, quando inúteis. Atente-se para o nome de uma delas, existentes em Piracicaba, nas últimas décadas do século XIX. Farmácia Piracicabana. Alguma das atuais seria sua sucessora?
‘Joaquim Xavier Araújo, tendo requerido à Junta Central de Higiene Pública, a necessária licença para continuar com a farmácia denominada Piracicabana, que foi de seu finado sogro, precisa ainda que V. Sas. façam atestar o seguinte:
1.º Há quantos anos existe funcionando a dita farmácia nesta cidade, devidamente autorizada?
2º. Há necessidade dela? Não obstante haverem mais três. E quantas dirigidas por farmacêuticos legalmente habilitados por títulos de formatura?
E, por isso
P. o suplicante a V. Sas. deferimento.
Piracicaba, 24 de outubro de 1881.
Joaquim Xavier Araújo’.
Assim despachou a Câmara:
‘O secretário certifique de conformidade com a deliberação da Câmara.
Piracicaba.
Manoel Ferraz de Arruda Campos, presidente interino’.
No verso do requerimento está o rascunho do atestado expedido pelo secretário. Disse rascunho porque a escrita está cheia de palavras riscadas. Apesar disso, no fim do papel, há o reconhecimento das assinaturas.
‘Valêncio Bueno de Toledo, secretário da Câmara Municipal desta cidade de Piracicaba etc.
Certifica a mandado da mesma Câmara que há muitos anos existe funcionando nesta cidade a Farmácia Piracicabana a contento do público e dos médicos do lugar; que é precisa esta farmácia em vista da população desta cidade e de suas necessidades.
O referido é verdade, do que dou fé.
Secretaria da Câmara Municipal de Piracicaba, em 23 de outubro de 1881.
Eu, Valêncio Bueno de Toledo, secretário o escrevi e assino:
Valêncio Bueno de Toledo
Manoel Ferraz de Arruda Campos, presidente interino.
Reconheço verdadeiras as duas firmas supra e dou fé.
Piracicaba, 5 de dezembro de 1881.
Em testemunho da verdade.
Joaquim Borges da Cunha’”.
E assim seguiram as vidas desses três personagens daquela Piracicaba do final do século 19: o sr. Araújo continuou administrando a farmácia que herdou do sogro; o sr. Almeida conseguiu um lugar apropriado para as cirurgias dos enfermos e autópsias dos defuntos; e o sr. Morais, que não tinha nada a ver com farmácias e nem com cadáveres, não teve remédio, teve que desembolsar o dinheiro da multa, eis que o inspetor de estradas, por sentimento de vingança, nem morto ia deixar de multar seu desafeto.
Achados do Arquivo — A série "Achados do Arquivo" é uma parceria entre o Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, ligado ao Departamento Administrativo, e o Departamento de Comunicação Social da Câmara Municipal de Piracicaba, com o objetivo de divulgar o acervo que está sob a guarda do Legislativo. As matérias são publicadas às sextas-feiras. (Texto e pesquisa: Natália Paiva Simões Marques)
Revisão: Rodrigo Alves - MTB 42.583
Pesquisa: Bruno de Oliveira
Anexos
- pdf documentos
- pdf texto - guilherme vitti
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