08 de maio de 2026

Em meio ao conflito de judeus e palestinos, uma preocupação cristã

Em 1949, um vereador apresentou, em Piracicaba, indicação pela internacionalização de Jerusalém e a proteção de lugares sagrados

Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Três religiões cujo berço é uma cidade na região montanhosa do centro-sul de um território historicamente conhecido como Palestina, a leste do Mar Mediterrâneo e a oeste do Mar Morto, rodeada por vales, como o do Cédron e o do Tyropoeon, e que também está Israel.

Fundada há cinco mil anos, Jerusalém já foi 12 vezes destruída, sitiada em outras 20 e capturada em 50 ocasiões. Sua mais que milenar história é caudalosa, repleta de tradições e também de conflitos, que ainda hoje são presentes no dia a dia da cidade – e do noticiário da geopolítica.

Por 400 anos, de 1517 a 1917, Jerusalém e a região da Palestina estiveram sob domínio do Império Otomano. Na Primeira Guerra, de 1914 a 1918, os otomanos lutaram ao lado da Alemanha na Tríplice Aliança, derrotada pela Tríplice Entente, e que gerou a dissolução do Império Otomano.

Quando a Primeira Guerra acabou, os países vencedores criaram a Liga das Nações, antecessora da ONU, que tinha, dentre suas finalidades, elaborar e seguir diretrizes para a manutenção da paz mundial. Em uma de suas primeiras decisões, o novo órgão definiu que, com a derrocada do Império Otomano, quem passaria a administrar a Palestina seria o Reino Unido.

Impulsionados pelo movimento sionista, judeus de diferentes partes do mundo começaram a migrar para a Palestina, elevando a população desta etnia em Jerusalém de seis mil em 1850 para 34 mil em 1922 e 174 mil em 1931.

No entanto, a situação não era simples. A região era ocupada, há séculos, por árabes-palestinos, que esperavam a formação de um Estado nacional após o fim da dominação turca, conforme uma promessa feita pelos britânicos. Acontece que a mesma promessa também havia sido feita aos judeus.

Assim, esse compromisso feito pelo Reino Unido se tornou um problema a partir do momento em que judeus e palestinos desejavam formar, num mesmo território, um Estado nacional, sem aceitar qualquer tipo de negociação para uma possível divisão do espaço.

A tensão continuou pelas décadas seguintes, até que, em 1939, com o aumento da violência, o Reino Unido mudou a postura na região, propondo um plano de partilha da Palestina, onde os dois estados existiriam separadamente. Mas os dois lados rejeitaram a proposta.

No mesmo ano teve início a Segunda Guerra Mundial e que matou milhões de pessoas, dentre elas judeus, vítimas dos nazistas, no que ficou conhecido como Holocausto. Esse acontecimento acelerou a imigração ilegal de judeus para a Palestina, levando a população judaica da região a passar de 445 mil, em 1939, para 808 mil, em 1946. Ao quase dobrar de tamanho, esse contingente se tornou ao equivalente a um terço da população da região.

Dois anos após o fim da guerra, em 1947, com o recrudescimento dos conflitos, a Inglaterra decide entregar o domínio da região à então recém-criada ONU – Organização das Nações Unidas, que decide votar, em sua Assembleia Geral de 29 de novembro, presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha, uma resolução que tratava da partilha da Palestina, estabelecendo a criação de um estado judeu ao lado de um estado palestino. A Resolução nº 181 foi aprovada por 33 votos, incluindo os votos dos Estados Unidos e da União Soviética, contra 13 votos contrários e 10 abstenções.

Além da partilha da Palestina, a proposta previa a internacionalização de Jerusalém, o que significava que a cidade passaria a ter o status de corpus separatum, sendo gerida de forma internacional, sob o argumento de que era fundamentalmente ligada às três grandes religiões monoteístas do mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Deveria, assim, receber tratamento especial e separado do resto da Palestina, ficando sob o controle da ONU.

Mas nem judeus e nem palestinos concordaram com a resolução. Israel esperava que Jerusalém ficasse sob seu domínio; já os palestinos reclamavam que as terras agriculturáveis ficaram para a minoria judaica e não aceitavam que, sendo os povos nativos daquela região, fossem submetidos a um governo formulado por estrangeiros.

O que se seguiu a essas discordâncias foi que, em maio de 1948, teve início a Guerra Árabe-Israelense e que se prolongou até julho de 1949.

De Piracicaba à ONU? - O conflito já se encaminhava para o fim, quando, bem longe do Oriente Médio, numa cidade interiorana do Brasil, um cidadão resolveu se manifestar, por meios oficiais, quanto ao assunto.

Érico da Rocha Nobre, engenheiro agrônomo, professor e pesquisador universitário da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – Esalq, estava no segundo ano de atuação dos quatro de seu mandato (1948-1951) como vereador na Câmara Municipal de Piracicaba.

Cristão, Érico estava sensibilizado quanto ao futuro de Jerusalém, enquanto berço da religião que professava, em meio às hostilidades entre judeus e palestinos. Então, em uma fria quinta-feira de inverno, em 30 de junho de 1949, aconteceu a Décima Quarta Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Piracicaba. Naquela ocasião, o vereador Érico apresentou a Indicação nº 41/1949, em que tratava sobre a “Internacionalização de Jerusalém”.

Escrita à mão, a Indicação tinha o seguinte teor:

“Indico, ouvido o plenário, que esta Câmara oficie ao Exmo. Sr. presidente da República, general Eurico Gaspar Dutra, no sentido de interpor, junto à Organização das Nações Unidas, seus bons préstimos no sentido de que se consiga a internacionalização de Jerusalém, a Cidade Santa da cristandade.

Trata-se de iniciativa que vem sendo reclamada pela vigorosa consciência cristã destes tormentosos dias que afligem a civilização. Não poderia Piracicaba ficar alheia a esse movimento em prol da internacionalização do berço da triunfante religião de Cristo. Deve, assim, secundar seu empenho valioso junto a quem, como o governo da República, muito pode fazer por que, afinal, se consiga tão justo ideal dos corações cristãos do orbe.”

O trecho “tormentosos dias que afligem a civilização” revelam a preocupação do vereador Érico, baseada nos dias de guerra que corriam naquele período e naquela região, e que poderia colocar em risco os locais considerados sagrados pelos religiosos em geral. A proposta foi colocada para deliberação nessa mesma sessão, tendo sido aprovada por unanimidade.

Na segunda-feira seguinte, 4 de julho, o vereador Guilherme Vitti, 1º Secretário da Mesa e presidente em exercício, envia cópia da Indicação ao presidente da República, como solicitado pelo vereador Érico da Rocha Nobre, e aproveita para mandar uma cópia ao bispo diocesano de Piracicaba.

Abaixo, o teor dos ofícios:

“162/49

Exmo. Sr.
General Eurico Gaspar Dutra
Digníssimo Presidente da República
Rio de Janeiro

Tenho a honra e cumpro o grato dever de levar ao conhecimento de Vossa Excelência que esta Câmara Municipal aprovou, por unanimidade, uma Indicação no sentido de solicitar se digne interpor, junto à Organização das Nações Unidas, seus bons préstimos para que efetive a internacionalização de Jerusalém, a Cidade Santa da cristandade.
Para melhor esclarecimento apraz-me anexar uma cópia da referida Indicação, de autoria do nobre líder desta Câmara Municipal.
Prevaleço-me desta oportunidade para apresentar a Vossa Excelência os elevados conceitos de admiração e os protestos de consideração e estima.

Guilherme Vitti
1º Secretário da Mesa, em exercício da Presidência.”


“163/49

Exmo. E Revmo. Sr.
D. Ernesto de Paula
DD. Bispo Diocesano
Piracicaba

Tenho a honra e cumpro o grato dever de levar ao conhecimento de Vossa Excelência Reverendíssima que, em sessão de 30 de junho p. passado, por indicação do nobre líder da Câmara Municipal, Dr. Érico da Rocha Nobre, deliberou o plenário seja oficiado ao Exmo. Sr. Presidente da República para que este interponha seus bons préstimos junto à Organização das Nações Unidas, a fim de ser efetivada a internacionalização de Jerusalém.
Prevaleço-me desta oportunidade para reiterar a Vossa Excelência Reverendíssima os meus elevados conceitos de admiração e a consideração distinta dos demais vereadores desta Câmara Municipal.

Guilherme Vitti
1º Secretário da Câmara Municipal, em exercício da Presidência.”

Cerca de um mês depois, em resposta ao Ofício nº 162/49, a Câmara recebe dois telegramas: um da Presidência da República e outro do Ministério das Relações Exteriores.

O ofício da Presidência da República trazia o seguinte conteúdo:

“Sr. Guilherme Vitti
Presidente em exercício Câmara Municipal de Piracicaba

Sr. Presidente República recebeu vosso of. 162/49 em 4 corrente. Submeteu assunto à consideração Ministério Relações Exteriores.

Saudações.

Carlos Roberto Aguiar Moreira
Secretário Particular Presidente da República”

Já o ofício do Ministério tinha o seguinte teor:

“Presidente Câmara Municipal de Piracicaba

Respondendo mensagem dessa Câmara Municipal, sr. Presidente República, ref. internacionalização Jerusalém, cabe-me informar que assunto merecendo toda consideração governo brasileiro.

Raul Fernandes
Ministro Relações Exteriores”

Também por aqueles dias foi recebida a resposta do bispo diocesano:

“Ilmo. Sr.
Guilherme Vitti
DD. 1º Secretário da Câmara Municipal em exercício da Presidência

Recebi seu prezado ofício de 4 do corrente, comunicando-me ter a nobre Câmara Municipal deliberado oficiar ao Exmo. Sr. Presidente da República para que este interponha seus bons préstimos junto à Organização das Nações Unidas, a fim de efetivada a internacionalização de Jerusalém e de seus arredores.
Agradecendo a gentileza da comunicação, congratulo-me com todos os senhores vereadores por esse belo gesto que tão de perto toca os interesses de todos os católicos do mundo.

Atenciosamente,
Ernesto de Paula
Bispo Diocesano”

É sabido que a Indicação do vereador Érico chegou às sedes da Presidência da República e do Ministério das Relações Exteriores, na então capital do país, o Rio de Janeiro. O que não se sabe é se o presidente Dutra ou o ministro Raul Fernandes a fizeram chegar à ONU, em Nova York.

Por aqueles dias foi encerrada a Guerra Árabe-Israelense de 1948. Jerusalém não foi internacionalizada. Teve sua parte oriental ocupada pela Jordânia, atual Cisjordânia, e a parte ocidental por Israel, com ambos, ao longo dos anos, reivindicando o controle total da cidade, até que, em 1967, Israel passou a ter o domínio também do lado oriental.

A situação jurídica de Jerusalém é motivo de controvérsias e disputas diplomáticas, tanto pelo lado do atual Estado de Israel quanto pelo lado da Causa Palestina.

A animosidade entre as partes se tornou permanente, permeada por vários conflitos entremeados por períodos de relativa paz.

Desde então, aconteceram a Crise de Suez, em 1956; a Guerra dos Seis Dias, em 1967; a Guerra do Yom Kippur, em 1973; a Guerra do Líbano, em 1982; a Segunda Guerra do Líbano, em 2006; e a Guerra entre Israel e Hamas, que começou em 2023 e ainda persiste, com frágil cessar-fogo no momento.

Yerushalayim - Jerusalém provém do hebraico Yerushalayim ou Yerushalem. Seria a junção de Yireh (o Senhor proverá) e Shalem (paz), que resulta em “O Senhor proverá a paz”. A terminação gramatical ayim indica plural.

Jerusalém, ou Yerushalayim, é uma cidade plural. Lá convivem povos muito diferentes. E sempre conviveram. É plural porque são muitas cidades numa só. Muitas cidades porque teve muitas encarnações e pertenceu a muitas culturas nos seus milhares de anos. Era a cidade dos cananeus, um povo que nem existe mais. Quatro mil anos atrás, os egípcios a registraram como Urusalim, que quer dizer “a base de Shalem” – em referência ao deus cananeu do anoitecer e da paz. Paz em hebraico é Shalom. Paz em árabe é Salaam.
Salaam. Shalom. Shalem. Urusalim. Yerushalayim.

A palavra "paz" está na milenar história de Jerusalém. Mas a sua longa, rica e plural história da vida real ainda aguarda o transbordo desta paz do nome para a cidade que anseia em se converter numa terra em que, de fato, “o Senhor proverá a paz”. E que seja, finalmente, a concretização de uma eterna promessa que habita seu sagrado nome.

Achados do Arquivo — A série "Achados do Arquivo" é uma parceria entre o Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, ligado ao Departamento Administrativo, e o Departamento de Comunicação Social da Câmara Municipal de Piracicaba, com o objetivo de divulgar o acervo que está sob a guarda do Legislativo. As matérias são publicadas às sextas-feiras.

Texto: Bruno de Oliveira
Revisão: Erich Vallim Vicente - MTB 40.337
Pesquisa: Bruno de Oliveira