27 de fevereiro de 2026
O penúltimo passeio dos integrantes da Brasília amarela mais famosa do País
Há 30 anos, o Brasil chorava a morte dos Mamonas Assassinas; na Câmara, documentos burocráticos revivem a melancolia do fim repentino do grupo
“Mina, seus cabelo é da hora
Seu corpão violão
Meu docinho de coco
Tá me deixando louco”
Impossível ler os versos acima sem mentalmente cantarolar o inesquecível ritmo musical que o acompanha. A música é “Pelados em Santos”. Quem a canta é a banda Mamonas Assassinas. Com esse nome excêntrico, cinco jovens de Guarulhos alcançaram um estrondoso e rápido sucesso, poucas vezes visto.
Dinho, Bento Hinoto, Samuel Reoli, Sérgio Reoli e Júlio Rasec se notabilizaram por composições que mesclavam pop rock com sertanejo, forró, vira, pagode romântico e heavy metal. Músicas com três minutos e meio de duração iniciavam com um ritmo, passavam a outro e depois voltavam ao ritmo inicial ou até mesmo iam para um terceiro.
“Vira-vira”, “Chopis centis”, “Robocop Gay”, “Lá vem o alemão”. Canções satíricas. Sempre com letras irreverentes. Não havia um segundo de seriedade. Essa fórmula foi lançada no álbum “Mamonas Assassinas”, que chegou às lojas no dia 23 de junho de 1995.
O disco, único na história da banda, quebrou inúmeros recordes. Álbum mais vendido em um único dia, com 25.000 cópias em apenas 12 horas. Por um período chegou a vender 50.000 cópias por dia, 100.000 a cada dois dias, somando 350.000 cópias em apenas uma semana. Em dezembro de 1995, somente seis meses após o lançamento, o disco chegou a 2 milhões de cópias vendidas.
Durante aquele segundo semestre de 1995 e nos dois primeiros meses de 1996 os Mamonas dominaram as rádios e protagonizaram programas de televisão. Lembrando que, naquela época, a televisão aberta era o principal meio de comunicação e entretenimento. Programas dominicais como Domingão do Faustão, da Globo, e Domingo Legal, do SBT, disputavam para ver qual dos dois teria o quinteto em seu palco, sendo que, àquele que conseguisse, era garantida a liderança na audiência.
O acidente - O ano de 1996 começou no mesmo ritmo que vinham desde o ano anterior. Liderança nas paradas de sucesso das rádios, intermináveis aparições na televisão e shows, muitos shows, pelo Brasil afora. O início de março marcava o fim da turnê nacional, ao que se seguiriam um período de descanso e embarque para Portugal, onde começariam sua turnê internacional.
No dia 1º de março, uma sexta-feira, durante o dia, a banda fez uma participação na Festa da Uva de Caxias do Sul-RS. Na sequência, embarcaram para Piracicaba, onde se apresentaram, à noite, no Estádio Municipal Barão de Serra Negra. Pernoitaram em Piracicaba e, no sábado de manhã, decolaram, do Aeroporto Pedro Morganti, rumo ao Aeroporto de Guarulhos. De Guarulhos voaram para Brasília-DF, onde fizeram o que seria o último show da turnê, mas que acabou sendo o último show da breve história da banda.
Após o show na capital federal, os cinco da banda mais o assistente Isaac Souto, o Shurelambers; o segurança Sérgio Saturnino Porto, o Reco; e também o piloto Jorge Luiz Germano Martins e o copiloto Alberto Yoshiumi Takeda, partiram, às 21h58, no avião Learjet 25D, prefixo PT-LSD, rumo ao Aeroporto de Guarulhos.
Mas ao se aproximar de Guarulhos, já se preparando para a aterrissagem, o piloto decidiu arremeter, e uma série de fatores – dentre eles a exaustão do piloto, devida a muitas horas de voo sem observar o tempo de descanso previsto em lei, e uma falha na comunicação entre a torre de controle no solo e os dois tripulantes da aeronave – fez com que a arremetida fosse feita para o lado esquerdo, o errado, e não para o direito, que seria o correto. Ao proceder dessa forma, o Learjet se chocou contra a Serra da Cantareira, causando a morte instantânea dos nove ocupantes do avião.
Eram 23h16 do sábado, 2 de março de 1996.
A Câmara e os Mamonas - Piracicaba sediou um show da banda na sexta-feira, 1 de março de 1996. Foi o penúltimo show dos Mamonas Assassinas. E esta edição da série “Achados do Arquivo” destaca um documento, de 1996, que trata de uma troca de informações, entre a Câmara Municipal e a Prefeitura, a respeito da apresentação do grupo na cidade.
Na segunda-feira, 25 de março, o vereador Juan Antonio Moreno Sebastianes apresentou o Requerimento nº 369/1996, que solicitava “informações ao chefe do Executivo sobre permissão do uso do Estádio Municipal Barão de Serra Negra à Alolocos Eventos e Promoções S/C Ltda para realização do show do conjunto ‘Mamonas Assassinas’”.
O requerimento traz o seguinte teor:
“Piracicaba foi a penúltima cidade a assistir ao show do grupo ‘Mamonas Assassinas’;
Em que pese o mérito da iniciativa, proporcionando lazer e diversão à população piracicabana, a um baixo custo, há que se ter respondidas algumas dúvidas, a nós apresentadas por alguns cidadãos;
Conforme o Decreto nº 7.208 de 01/03/96, a iniciativa do evento, bem como o apoio institucional foram da Prefeitura Municipal de Piracicaba através de sua Secretaria de Esporte, Lazer e Turismo, justificando a gratuidade da cessão do espaço do Estádio Municipal;
O grupo ‘Mamonas Assassinas’ tinha um empresário responsável pela administração da vida artística do conjunto. No entanto, a Alolocos Eventos e Promoções intermediou a vinda do conjunto para Piracicaba e explorou a bilheteria do show;
Desta forma, não ficou clara a finalidade social do evento, nem os procedimentos que levaram à escolha daquela promotora de eventos;
Sendo assim:
Requeremos, nos termos regimentais, que se oficie ao Chefe do Executivo, para que, através do órgão competente, responda às seguintes indagações:
1 – Qual o processo utilizado para a escolha da Alolocos Eventos como mediadora nas negociações com o empresário do grupo ‘Mamonas Assassinas’? Anexar cópia do processo.
2 - O evento teve caráter beneficente como foi dito?
3 - Caso afirmativo, quais as entidades e qual o valor repassado a cada uma?
4 – Se o próprio municipal foi cedido gratuitamente, e a iniciativa do evento foi da Prefeitura, por quê foi permitida a exploração da bilheteria pela outorgada?
5 - Solicitamos ainda, cópia do borderô da arrecadação auferida.
6 – Outras informações pertinentes”.
Três dias depois, durante a 15ª Reunião Ordinária, o requerimento foi aprovado. Mais tarde, em 8 de abril, por intermédio do Ofício nº 0593/96, o então presidente da Câmara, vereador Vanderlei Luiz Dionísio, encaminha o requerimento ao prefeito, Antonio Carlos de Mendes Thame.
Dez dias depois, em 18 de abril, o prefeito responde a Câmara, por intermédio do Ofício GP/656/96, em que encaminha, em anexo, “as informações prestadas pelo setor competente”. Junto ao ofício do prefeito, vem o ofício do “setor competente”, no caso, a Secretaria de Esportes, Turismo e Lazer, cujo secretário, Luiz Roberto Di Giaimo Pianelli, assina e encaminha, em anexo, “documentos de fls. 01 a 75, para elucidar o questionado”.
Esse conjunto de documentos é formado por quatro subconjuntos de papéis que se complementam e contam um pouco dos bastidores burocráticos do show dos Mamonas: um ofício referente à doação de parte da renda obtida com a venda dos ingressos à A. D. Unimep, bem como à doação de 2.000 ingressos aos clubins e centros comunitários; recibos de recebimento desses ingressos por parte dessas instituições; o Decreto Municipal que autorizava e regulamentava o uso do estádio municipal para o show; e um documento que, banal para a época e para a ocasião, hoje chama a atenção e ganha uma exclamativa dimensão histórica: o contrato firmado entre a promotora de eventos Alolocos e os renomados empresários musicais Sam Roberto Elia (Samy Elia) e Ricardo Bonadio (Rick Bonadio), para a realização do show da banda na noite de 1º de março de 1996, na cidade de Piracicaba.
Datado de 28 de fevereiro de 1996, o Of. Setel 141/96, assinado pelo secretário de Esportes, Turismo e Lazer, Luiz Roberto Di Giaimo Pianelli, e encaminhado ao secretário municipal de Ação Cultura, Carlos Roberto Hoppe Fortinguerra, informava o seguinte:
“Vimos por meio deste, comunicar a V. Sa. que conforme acordo entre a Secretaria de Esportes, Turismo e Lazer, o Sr. Pedro Cler Pares e a A. D. Unimep, 6% da renda a partir de 15.000 ingressos vendidos, do show dos Mamonas Assassinas, será doado à A. D. Unimep e 2.000 ingressos no valor de R$ 16.000,00, doado aos clubins e centros comunitários”.
Os recibos que comprovam a doação desses ingressos estão com data de 28 de fevereiro de 1996 e vêm com a assinatura da pessoa que, no momento da retirada, representavam a instituição agraciada.
As pessoas e instituições são as seguintes: Antonio Arruda Oliveira – Bairro Cecap; Marlene de Lima – Projeto Clubin; João Francisco R. de Godoy – Casa do Bom Menino; Cristina Arzolla – Projeto Clarear; Bairro Nova América; Alex Tornisielo – Jupiá; Edileuza – Vila Cristina; Aroldo Cristiano Rodrigues – Vila Monteiro; Antonia de Fátima Bacchin – Tupi; Waldir Inforsato – Dois Córregos; Antonia D. B. Fornazari – São Jorge; César A. Bollis – Jardim Planalto; Maria F. Oliveira – Vila Industrial; Ester G. Custódio – Jardim Vitória; Suely – São Dimas; Sebastião Soares – Parque Eldorado; Italo Vitti – Vila Rezende; José Irineu Balotta – Santa Terezinha; Gilmar Tanno – Piracicamirim; Maria J. M. Campos – Jardim Esplanada; Antonio Reynaldo Covas Rodrigues – Monte Líbano; Pedro Luiz Bertochi – Jardim Caxambu; Sara Arruda – Parque Piracicaba; Greice Dilio – Higienópolis; Luiz – Pauliceia; Geraldo Lara Silveira Junior – Jaraguá; Jardim Itapuã; José da Silva Ferreira – Parque das Indústrias; e Casa Transitória Para Meninas.
Já o Decreto 7.208 foi publicado no mesmo dia do show, 1º de março. O texto trazia diversos dispositivos que regulamentavam a permissão de uso do estádio por parte da Alolocos Eventos e Promoções. Dentre esses dispositivos chama a atenção o art. 2º, inciso IX, alíneas “a” e “b”:
“Art. 2º ...
IX – Ficam estabelecidos os seguintes preços para os ingressos do show do grupo musical ‘Mamonas Assassinas’:
a) preço para compra antecipada – R$ 7,00 (sete reais)
b) preço para o dia do show – R$ 10,00 (dez reais)”.
Nos tempos atuais, com shows em estádios extremamente inflacionados, esses valores são irrisórios, mas eram compatíveis com o valor da moeda da época. Hoje soam impensáveis para entrada num show. Com esses valores não se compra sequer um refrigerante durante a apresentação. Muito menos uma cerveja. Talvez uma água – e uma garrafinha de 250ml.
Finalmente, o contrato celebrado entre a promotora de eventos Alolocos e os empresários musicais Samy Elia e Rick Bonadio, para a realização do show dos Mamonas em Piracicaba. Trivial no dia-a-dia de uma banda e usado de forma corriqueira, tal documento acaba por ficar relegado a só mais um dentro da massa burocrática exigida para a realização de uma turnê.
Mas esse contrato, em específico, adquire um contorno histórico. É o contrato referente à penúltima apresentação da banda.
De cara, chama a atenção, no topo, o nome do grupo escrito em caixa alta, com a tradicional fonte utilizada para grafar as palavras “MAMONAS ASSASSINAS”. Dentre as cláusulas do contrato, três se destacam.
A primeira:
“O objeto central do presente instrumento consiste na contratação pela CONTRATANTE, dos CONTRATAD0S para a realização de apresentação artístico musical, do grupo musical MAMONAS ASSASSINAS, no dia 01 de Março de 1996, na cidade de Piracicaba, estado de São Pauto, no Estádio do XV”.
De simples texto de cláusula contratual, as menções ao nome da banda, à data do show e ao local de apresentação, lidas em conjunto, hoje tomam um espectro melancólico, devido ao fatal acontecimento do dia seguinte.
A nona cláusula:
“Fica certo e ajustado que o preço para a apresentação é de R$ 60.000,00 (sessenta mil reais) + R$ 960,00 (novecentos e sessenta reais) de transporte (ônibus) + R$ 1.000,00 (hum mil reais) para o Baba Cósmica (autores de Sábado de Sol) que irão fazer a abertura do show + 03 passagens (ponte aérea)”.
As quantias acertadas nessa cláusula fazem com que, mais uma vez, salte aos olhos a discrepância entre o valor monetário da época e o que vigora nos dias atuais. Destaque também para a banda escalada para fazer o show de abertura: Baba Cósmica, um grupo que, pegando carona no sucesso dos Mamonas, chegou a vender 45 mil cópias de seu disco de estreia, além de figurar na quarta posição do programa Top 20 Brasil, da extinta MTV, na edição do dia 21 de dezembro de 1996.
E a sétima cláusula:
“A CONTRATANTE se obriga a fornecer boas instalações de camarins, com sala e espelho, 01 banheiro com chuveiro, ventilador, 10 cadeiras, 02 mesas, 03 caixas de água (sendo 01 gelada), 40 latas de refrigerantes, frutas da época, salgados, 30 toalhas e sistema de segurança para os integrantes do grupo MAMONAS ASSASSINAS, ficando responsável pela integridade física de todos os componentes e mais equipe de segurança na frente de toda a extensão do palco”.
Essa cláusula traz informações de um bastidor que revela uma certa simplicidade nos pedidos do grupo. Nenhuma extravagância. Nenhuma exigência esdrúxula, como invariavelmente é noticiado quanto às condições impostas por bandas no auge de seu sucesso.
Ventilador, água, refrigerante – sem exigência de marca, salgados. Solicitações frugais. Um camarim simples.
Essa singeleza nos pedidos faz eco ao despojamento do grupo. Despojamento presente no jeito de ser de seus integrantes e nas letras das músicas. Canções que, num país cuja maioria da população é composta de gente humilde, conversavam com as realidades dessas pessoas fazendo troça de situações corriqueiras. O linguajar irreverente, despretensioso, atingia todas as camadas da população, de forma indistinta.
O ato de rir de si mesmo é uma das características mais marcantes do brasileiro. Do que é ser brasileiro. Provavelmente esse “autodeboche” tenha sido o amálgama entre banda e público. Química imediata que rolou entre o imaterial espírito zombeteiro de um país, cinco de seus habitantes e o resto da população.
Arquivado por 30 anos, e só agora trazido à tona novamente, o Processo nº 0524/1996 contém um requerimento de informações feito por um vereador e a respectiva resposta enviada à Câmara pelo prefeito. Documentos os mais comuns no cotidiano legislativo da Casa, mas que, três décadas depois, trazem à luz um pouco do cenário que envolveu o hoje tristemente histórico penúltimo show dos Mamonas Assassinas.
“Quantcha gente, quantcha alegria!”
Final de junho de 1995 ao início de março de 1996. Esses pouco mais de oito meses foram suficientes para imortalizar os Mamonas na história da música brasileira. O trágico acidente aéreo tirou a vida de Dinho, Bento, Samuel, Sérgio e Júlio, mas a aura bem-humorada da banda permanece viva.
Suas músicas ainda tocam em festas e churrascos Brasil afora.
Os jovens e as crianças (sim, o grupo alcançou esse público) da década de 1990, hoje na faixa dos 40, 50 anos, sabem as letras de cor. Mas não só eles. Os mais novos, nascidos bem depois de 1996, também sabem cantar Mamonas.
Afinal, uma certa Brasília amarela nunca parou de perambular pelas ruas do país.
Achados do Arquivo — A série "Achados do Arquivo" é uma parceria entre o Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, ligado ao Departamento Administrativo, e o Departamento de Comunicação Social da Câmara Municipal de Piracicaba, com o objetivo de divulgar o acervo que está sob a guarda do Legislativo. As matérias são publicadas às sextas-feiras.
Revisão: Erich Vallim Vicente - MTB 40.337
Pesquisa: Bruno de Oliveira
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