20 de março de 2026
Água e urbanização: os primeiros impasses do abastecimento em Piracicaba
Série ‘Achados do Arquivo’ resgata texto de Guilherme Vitti em que ele traz à tona problemas no setor relatados à Câmara de Piracicaba em 1890
O cotidiano dos habitantes de Piracicaba em 1890 tinha melhorado de forma considerável fazia três anos. Até 1887, o método utilizado para o abastecimento de água era arcaico: a distribuição era feita em pipas (recipientes bojudos de madeira) colocadas sobre carroças puxadas por burros.
A partir de 1887, porém, a cidade contava com um sistema de abastecimento de água, inaugurado com grande pompa em maio, operado pela Empresa Hidráulica, de propriedade dos senhores João Frick e Carlos Zanotta. Mas como é comum acontecer em qualquer tempo ou lugar, o serviço começou a apresentar problemas, o que fez com que a Câmara solicitasse informações à empresa.
Indagada sobre as intercorrências, a Empresa Hidráulica respondeu à Câmara em fins de setembro de 1890. O conteúdo dessa resposta é o tema do texto “Água: Problema de sempre...”, escrito pelo professor Guilherme Vitti e publicado nesta edição dá série “Achados do Arquivo – Memórias de Um Arquivo”.
Segue, abaixo, o texto do professor:
“Enquanto Piracicaba permaneceu vilazinha, o problema da água não existiu. Quis crescer, tornar-se cidade, e o castigo apareceu para lhe castigar o orgulho. A princípio o rio, os córregos, riachos e fontes satisfaziam a necessidade do líquido precioso, que era abundante e gratuito.
Depois... Então começa a inana. Entra o poder público na jogada procurando solução mais apropriada. O serviço de fornecimento é entregue a uma firma particular. Surgiu a Empresa Hidráulica, que não tardou muito a sofrer críticas costumeiras dos impacientes cidadãos.
A Câmara oficiara à Empresa pedindo soluções para reclamações diversas a respeito do fornecimento da água.
A Empresa respondeu com o ofício abaixo:
‘Cidadãos membros da Intendência Municipal de Piracicaba.
Damos hoje solução aos tópicos de que trata o ofício dessa Intendência, de 5 de maio último. Demoramo-nos em responder, por ter estado ausente o nosso colega, João Frick, que só agora chegou a esta cidade.
Em contestação, vos informamos:
1º Que os chafarizes fornecem água ao público desde o 1º de julho do ano passado, e vos pedimos que o prazo, de que reza o contrato conte desde essa data.
2º Executamos de consciência as obras mencionadas em nosso contrato e lhe damos muito maior desenvolvimento do que nos era exigido; acontece, porém, que as circunstâncias gerais da cidade, pela franqueza com que a abastecemos d’água, fornecendo mais de mil litros diários a cada casa, por preço muito inferior ao do contrato, demonstra não podermos dar a água límpida durante as águas turvas no rio, o que, parece-nos, se dá regularmente de janeiro a abril, na estação das chuvas; consideramos estas circunstâncias combinadas caso de força maior, prevista no contrato, e esperamos da vossa boa-fé que assim o considereis.
Não podendo nós, porém, conseguir, sem aumento em nossos reservatórios, vencer esta dificuldade, vamos, desde já, providenciar no sentido de aumentar nosso depósito d’água com novas construções. A experiência nos tem mostrado nestes três últimos anos, que a turbidez da água em época de chuvas, não pode vencer-se com filtros. Só é conseguível, praticamente, pelo repouso. Estamos procedendo a estudo e vos comunicaremos o resultado até o próximo dia 15 de novembro.
3º A Empresa não pretende, por considerá-lo contrário a todos os interesses de salubridade e higiene, seguir o sistema de água por medida, a pagar pelo preço do contrato, devendo, para esse fim, munir-se, e à sua custa, com o hidrômetro de Kennedy, ou sujeitar-se-á a que a Empresa lhe regularize o calibre da torneira a não poder tomar mais do que 250 litros diários.
4º O regulamento que a Empresa propõe, e pode continuar em execução pelo menos ainda por três anos, é simplesmente o que se acha impresso nos cartões da cobrança e é já bem conhecido do público. Com referência à multa da cláusula 26ª a Empresa propõe o seguinte:
1º - Se ela faltar com água à cidade por mais de 24 horas, salvo caso de força maior, que seja multada no máximo da pena, isto é, nos 15.000 réis, conforme o contrato.
2º - Se faltar água em qualquer casa particular por 24 horas, a contar do aviso deste à Empresa, e quando a falta for por culpa desta, no caso em que o particular não tenha infringido o regulamento e esteja em dia com os seus pagamentos, 5.000 réis de multa.
3º - Se a Empresa exigir, por si ou por seus prepostos, pagamento maior do que o estipulado na tabela do regulamento, 15.000 réis de multa.
4º - Se a Empresa não restabelecer no estado anterior as ruas e praças da cidade, e feito qualquer outro serviço que as danifique, onde colocasse encanamentos, e não atender à compostura dentro de 24 horas, depois de notificada pelo fiscal, pagará dez mil réis de multa.
5º - A Empresa propõe que estas multas, em que espera não incorrer, revertam em favor da Santa Casa de Misericórdia.
A Empresa considera ter contestado ao ofício da Intendência atrás mencionadas; se houver, porém, necessidade de qualquer esclarecimento mais, a Empresa desde já declara que, além dos deveres a que está obrigada, fará sacrifícios, no intuito de se mostrar grata à confiança das extintas Municipalidades e da atual Intendência, confiança esta que, acima de tudo, desejamos não desmerecer.
Saúde e fraternidade.
Piracicaba, 23 de setembro de 1890.
Os empresários
João Frick
Carlos Zanotta’”.
Um trecho da resposta da Empresa Hidráulica merece uma observação: no item 3 a empresa afirma que, para medição do consumo de água, adotaria o “hidrômetro de Kennedy”. Esse hidrômetro foi criado pelo escocês Thomas Kennedy em meados do século 19, tendo sido amplamente utilizado no Reino Unido, no continente europeu e nos Estados Unidos. Possivelmente, já no fim do século, o referido aparelho também estivesse em uso em terras brasileiras, o que explica a citação a ele feita pelos empresários.
O texto de Vitti permite um vislumbre das tratativas feitas entre o poder público e a empresa, a fim de se garantir o abastecimento do precioso líquido para a população naquele início da década de 1890.
Com a praticidade para obtenção de água recém conquistada, certamente nenhum habitante se resignaria a ter que retroceder ao uso do método antigo. Então, a empresa que tratasse de cumprir os termos firmados, sob o risco de o contrato ir por água abaixo...
Achados do Arquivo — A série "Achados do Arquivo" é uma parceria entre o Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, ligado ao Departamento Administrativo, e o Departamento de Comunicação Social da Câmara Municipal de Piracicaba, com o objetivo de divulgar o acervo que está sob a guarda do Legislativo. As matérias são publicadas às sextas-feiras.
Revisão: Erich Vallim Vicente - MTB 40.337
Pesquisa: Bruno de Oliveira
Anexos
- pdf documento
- pdf texto - guilherme vitti
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