27 de março de 2026

Achados do Arquivo resgata a história da Capela do Passo do Senhor do Horto

Capela representa a agonia de Jesus no Horto das Oliveiras; obra é de Miguelzinho Dutra, aclamado pintor, escultor e entalhador

Na fria noite da quinta-feira, após cear com seus apóstolos, Jesus se dirigiu ao Getsemâni, ou Horto das Oliveiras, em Jerusalém. Com Ele, foram os discípulos João, Pedro e Tiago. No Horto, em profunda agonia, pois sabedor da excruciante morte pela qual passaria, Jesus disse aos três: “Sinto uma tristeza mortal! Ficai aqui e vigiai”. Afastando-se, caiu de joelhos e proferiu a seguinte oração: “Pai, se possível, afasta de mim esse cálice. Mas seja feito não o que eu quero, porém o que tu queres”.

Não muito tempo depois chegaram Judas, que O entregara, e os romanos. Com espadas e paus O prenderam e O levaram.

Na madrugada, foi interrogado pelo Sinédrio. Já pela manhã, foi julgado e condenado pelo procurador romano na Judeia, Pôncio Pilatos.

Depois da sentença, saiu da Fortaleza Antônia com a cruz de madeira nos ombros, percorrendo, em seguida, as vias de Jerusalém até o Gólgota, o monte onde foi pregado à cruz.

Crucificado às 12h, morreu às 15h da sexta-feira. Foi sepultado logo após a morte, na sexta mesmo. E, no domingo de manhã, ressuscitou.

De forma resumida, e de acordo com os evangelhos, esses são os determinantes fatos acontecidos com Jesus entre a noite de quinta-feira e a manhã de domingo.

Vem, desses acontecimentos, a celebração dos dias conhecidos como Quinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa, Sábado de Aleluia e Domingo de Páscoa. A chamada Semana Santa.

E, por estarmos às vésperas de mais uma Semana Santa, esta edição da série Achados do Arquivo aborda um pouco da história de um discreto, mas importante, patrimônio de Piracicaba, essencialmente ligado às tradições dessa semana única no calendário cristão: a Capela do Passo do Senhor do Horto.

A Via Sacra

Quatro séculos após a morte de Cristo, essas derradeiras horas de Jesus passaram a ser relembradas e celebradas em Jerusalém, quando cristãos começaram a percorrer o trajeto da chamada Paixão de Cristo, ou seja, o caminho por onde Jesus passou até chegar ao local da crucificação e consequente morte.

Assim teve início a celebração que viria a ser conhecida como Via Sacra ou Via Crucis.

Pelos séculos seguintes, as peregrinações à Jerusalém se intensificaram, até que, no ano de 1342, com a Bula Gratias Agimus, o Papa Clemente VI instituiu a Custódia Franciscana da Terra Santa, confiando o cuidado dos “lugares santos” à Ordem dos Frades Menores. Assim, seriam os franciscanos os grandes promotores da devoção do que viria a ser da Via Sacra, marcando a chamada “Via Dolorosa”, em Jerusalém, com os primeiros oratórios em honra aos eventos da Paixão.

Ocorreu que, os peregrinos, ao voltarem para os seus países de origem, queriam recordar os lugares visitados. Então, diante desse desejo dos cristãos, começaram a surgir na Europa os chamados Montes Sacros, conjunto de pequenas capelas, geralmente construídas em uma colina, que reproduziam os vários lugares da Paixão em Jerusalém, como o Horto das Oliveiras, o Gólgota, o sepulcro.

A partir do século 15 começa a se consolidar a forma tradicional da chamada Via Sacra. Na Europa, em torno dos Montes Sacros, se desenvolvem três devoções que resultariam na Via Sacra como se conhece atualmente: a devoção às “quedas” de Jesus sob o peso da cruz; a devoção aos “caminhos dolorosos” percorridos por Jesus: do Horto ao Sinédrio, daí ao palácio de Pilatos, e assim por diante (alguns lugares adotaram o costume de visitar sete igrejas na Sexta-Feira Santa em honra a esses “caminhos”); e a devoção às “estações” de Cristo, referentes aos momentos em que Jesus parou durante o trajeto do Gólgota, encontrando-se com sua mãe Maria, com Simão de Cirene, com Verônica e com as mulheres de Jerusalém.  

Entre os séculos 15 e 17 aparecem os primeiros formatos da representação da Via Sacra, que variavam tanto quanto ao número de estações, indo de sete até 30, como quanto à estação inicial, sendo que uns formatos começavam pela condenação de Jesus por Pilatos, outros iniciavam pela agonia de Jesus no Horto, e outros, ainda, pelo anúncio da traição de Judas durante a última ceia.

No ano de 1731, o Vaticano autoriza que a Via Sacra fosse reproduzida em todas as igrejas e, a partir de então, é fixado o formato hoje tradicional das catorze estações:

1. Jesus é condenado à morte

2. Jesus carrega a cruz

3. Jesus cai pela primeira vez

4. Jesus encontra-se com sua Mãe

5. Jesus é ajudado por Simão de Cirene

6. Jesus tem o rosto enxugado por Verônica

7. Jesus cai pela segunda vez

8. Jesus consola as mulheres de Jerusalém

9. Jesus cai pela terceira vez

10. Jesus é despido de suas vestes

11. Jesus é pregado na cruz

12. Jesus morre na cruz

13. Jesus é descido da cruz

14. Jesus é sepultado

A Capela do Passo do Senhor do Horto

A devoção à Via Sacra se espalhou pelo mundo, indo além do continente europeu. Países com forte tradição católica, como os da América do Sul, incorporaram a celebração. Em especial o Brasil.

Diversas cidades do país passaram a ter, no interior de suas igrejas, quadros referentes às estações da Via Crucis, ou, ainda, capelas espalhadas pelo município, cada uma representando uma estação, um passo da Paixão.

Essas capelas, chamadas de “Passos da Paixão”, também existiram em Piracicaba.

No século 19, as capelas do Passo do Senhor foram erigidas em partes de terrenos pertencentes às propriedades de algumas famílias piracicabanas, tais como Honório Libório, Francisco Ferraz de Carvalho, Ricardo Pinto de Almeida, Joaquim Floriano Leite, Luiz Antônio Freire, José Viegas Moniz, Rita Eufrosina de Oliveira, Jaime Pinto de Almeida e Felipe Xavier da Rocha. Cada família construiu uma capela que representava uma estação.

Com o passar do tempo, todas essas capelas foram, aos poucos, desaparecendo da paisagem urbana, com exceção de uma: a Capela do Passo do Senhor do Horto.

Pelo fato de essa capela representar a agonia de Jesus no Horto das Oliveiras, depreende-se que, em Piracicaba, a estação inicial da Via Crucis era justamente essa, a de Cristo no Horto.

Com o intuito de erigir uma capela para fazer parte do conjunto de capelas que integravam os passos da Via Sacra em Piracicaba no início da década de 1870, o casal Felipe Xavier da Rocha e Benedita Antonia de Lima Rocha encomendou a Miguel Arcanjo Benício de Assunção Dutra, aclamado pintor, escultor e entalhador conhecido como Miguelzinho Dutra, a construção de uma capela, representando a agonia de Jesus no Horto das Oliveiras, em terreno contíguo à residência do casal, localizada na antiga rua dos Pescadores, atual Prudente de Moraes.

No melhor estilo barroco, Miguel Dutra desenvolveu o projeto, a construção, o entalhamento e a escultura das imagens e das peças decorativas.

A fachada é singela: se vislumbra somente duas pilastras laterais que servem de apoio ao frontão triangular e, no centro, uma porta ogival. Em seu interior, o altar, em que se destaca a imagem do Senhor do Horto empunhando o cálice da amargura, numa obra que revela, em belos traços, a fisionomia de um Cristo em sofrimento, sabedor do martírio que se aproximava.

A capela foi inaugurada nas celebrações da Semana Santa de 1873, no Domingo de Ramos, em solenidade liderada pelo vigário Francisco Galvão Paes de Barros, mais conhecido como padre Galvão, em que comunidade e autoridades percorreram as ruas da cidade, visitando os demais Passos existentes.

Cem anos depois, em 1973, foi tombada pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Turístico do Estado de São Paulo). Em 2004, o tombamento se dá também no âmbito do município. Nos dias atuais, com um século e meio de existência, passou por alguns restauros, sendo que o último se deu em 2013.

Os documentos da Câmara

No Acervo Histórico da Câmara não consta nenhum documento da época da inauguração que faça referência à capela, possivelmente pelo caráter corriqueiro, para aqueles dias, de a cidade estar “somente ganhando mais uma capela”. Ela, a capela, só adquiriria sua dimensão histórica com o passar dos anos. Dos muitos anos.

Esse valor histórico agregado ao longo do tempo refletiu em dois documentos produzidos mais recentemente: a citação em um texto, de autoria do professor Guilherme Vitti, de 1979; e o Decreto Municipal que tombou a capela, de 2004.

Em um de seus escritos, o professor Guilherme aborda o tema “Histórico da Igreja Matriz de Piracicaba no período imperial” e, nesse trabalho, ele cita, de passagem, entre parênteses, a capela e seu realizador, Miguel Dutra.

Eis o trecho:

“Miguel Arcanjo Benício da Assunção Dutra, antepassado da família de artistas renomados, os Dutra, que Piracicaba tem a honra de contar entre seus habitantes, não desmentindo a veia artística de seu ancestral. Tanto ele se enamorou das belezas desta cidade que por aqui ficou, realizando outras obras de vulto, dentre as quais, uma ainda existe, que é motivo de admiração: a Capela do Passo, localizada na rua Prudente de Moraes, obra atualmente tombada pelos poderes públicos”.

Por sua vez, o decreto municipal 10.999, de 29 de dezembro de 2004, traz o seguinte teor:

“Art. 1° Fica tombado, como Patrimônio Histórico e Cultural de Piracicaba, o Passo do Senhor do Horto, localizado à rua Prudente de Moraes, s/n°.

Art. 2° Fica o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Piracicaba autorizado a inscrever o imóvel de que trata o artigo anterior no Livro Tombo competente, para todos os efeitos legais”.

Patrimônio e meditação

Ao se andar pelo Centro da cidade, é impossível ficar indiferente à suntuosidade da Catedral de Santo Antônio. Gigantesca, não tem como não olhá-la. Mesmo sem querer, os olhos facilmente focalizam sua imponente arquitetura.

O contrário acontece com a Capela do Passo, distante somente quatro minutos de caminhada da Catedral. Discreta no centro da cidade, muitas vezes desconhecida por quem passa em frente, raramente é notada. Geralmente, chama mais a atenção nas poucas vezes em que sua porta está aberta, causando reações diversas nos que passam: os que não sabiam de sua existência, param, olham dentro, perguntam do que se trata e às vezes batem foto; os que já a conheciam muitas vezes param, dão uma olhada naquele interior que vive fechado e seguem caminho, os católicos não sem antes fazer o sinal da cruz.

Hoje sob a jurisdição da Paróquia Santo Antônio – Sé Catedral, o Passo do Senhor do Horto continua protagonizando as tradicionais celebrações litúrgicas da Semana Santa. Além dessas celebrações, uma vez por semana suas portas são abertas, durante uma hora, para oração e meditação de fiéis: às sextas-feiras, das 15h00 às 16h00 – não coincidentemente, dia da semana e hora da morte de Jesus.

Independente de religião, o Passo do Senhor do Horto merece um olhar mais detido. Uma observação mais atenta. Merece ser contemplada enquanto patrimônio histórico.

Um local com mais de 150 anos de existência, que remete a práticas religiosas da Idade Média que, por sua vez, ecoa o acontecido numa quinta-feira à noite – Quinta-feira Santa para os católicos –, num horto de oliveiras em Jerusalém, quando um homem esculpiu, através de suas ações, de sua Paixão, a pedra fundante da religião de boa parte do mundo.

Dentro da capela, acima da imagem de Cristo, há a seguinte inscrição: “Pater, si fieri potest, transeat a me calix iste”, que significa “Pai, se possível, afasta de mim esse cálice” (Mateus 26:39). Para os cristãos, essa frase desnuda o conflito entre o lado divino e lado humano de Cristo: o divino, sabedor das dores pelas quais passaria; o humano, justamente por saber, desejoso de não sofrer. A frase e a imagem do Cristo de alguma forma conversam com as pessoas que ali buscam refúgio, pois humanas. Pessoas que, justamente pela condição humana, passam por atribulações. Que sabem que a vida costuma reservar dores futuras e que, exatamente por essa inevitabilidade, rogam àquele Senhor do Horto para que afaste certos cálices de amargura ou que, não sendo possível, que proveja ressurreições cotidianas. Ou, ao menos, uma esperança de ressurreição.

Achados do Arquivo — A série "Achados do Arquivo" é uma parceria entre o Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, ligado ao Departamento Administrativo, e o Departamento de Comunicação Social da Câmara Municipal de Piracicaba, com o objetivo de divulgar o acervo que está sob a guarda do Legislativo. As matérias são publicadas às sextas-feiras.

Texto: Bruno de Oliveira
Supervisão: Rodrigo Alves - MTB 42.583
Revisão: Rodrigo Alves - MTB 42.583

Anexos