PIRACICABA, QUARTA-FEIRA, 28 DE JULHO DE 2021
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31 DE MARÇO DE 2021

Palestras focam formação autodidata e profissional do artista teatral


Romualdo Sarcedo e Fátima Moniz descortinam o universo da formação do artista de teatro do interior, na luta pela sobrevivência.



EM PIRACICABA (SP)  

Palestras focam formação autodidata e profissional do artista teatral

Palestras focam formação autodidata e profissional do artista teatral

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Palestras focam formação autodidata e profissional do artista teatral



Na passagem do Dia Internacional do Teatro, comemorado em 27 de março, a Escola do Legislativo, Antonio Carlos Danelon – Totó Danelon, da Câmara de Vereadores de Piracicaba promoveu eventos que analisam a vida do artista de teatro que vive e trabalha no interior, construída a partir de vértices do autodidatismo até a graduação em universidades. As lives estão disponíveis no canal da Escola no YouTube, através do link: https://www.youtube.com/channel/UCof7kyatk6Sz4xk7lhYc4xQ

O ciclo de palestras, dividido em quatro módulos (I, II, III e IV) aconteceu ao vivo, via online, pela plataforma Zoom, nos dias 30 e 31 de março, terça e quarta-feira, consecutivamente, das 15 às 17 horas, com duas temáticas diárias.

Nesta quarta-feira (31), no tema I: O curso técnico como formação da(o) artista de teatro, o palestrante foi Ricardo Araújo - ator e diretor de teatro, que atualmente é docente no curso técnico em Teatro do SENAC Piracicaba, foi diretor artístico da Companhia Estável de Teatro de Piracicaba, com formação em Pedagogia e Licenciatura, pós graduação em Tecnologia da Aprendizagem.

E, no tema II: O curso universitário como formação da(o) artista de teatro, teve como palestrante: Paula Ibañez – Atriz, diretora teatral e doutora em Artes da Cena pela Unicamp, com experiência na docência e em pesquisa relacionada às artes da presença, além de ser membro do grupo de estudos interculturais das Artes da Presença - Unicamp.

Na tarde de ontem (30), no tema III: A formação autodidata, o palestrante foi Romualdo Sarcedo - ator profissional, autor, diretor e produtor teatral, responsável pela Cia. Roma Produções Artísticas, que atuou em mais de 40 espetáculos desde 1984, com viagens ao exterior, prêmios e trabalho na área de teatro direcionado às escolas. Realizou diversos projetos no setor público e privado nas áreas de educação ambiental, saúde e trânsito.

E, no tema IV: A iniciação teatral a partir de cursos livres e grupos amadores, teve como palestrante: Fátima Monis – formada em jornalismo pela Unimep e Artes Cênicas pela Unicamp. Mestre pela faculdade de Educação Física da Unicamp. Licenciatura em Artes pela Claretianas. Foi professora do curso técnico de Teatro no Conservatório Carlos Gomes, do curso técnico de Teatro no Senac Piracicaba e orientadora de Artes Cênicas do SESI Piracicaba.

A coordenação dos trabalhos esteve a cargo da diretora da Escola do Legislativo, Silvia Morales (PV), juntamente com Jhoão Scarpa, que integra o Mandato Coletivo A Cidade É Sua. Foram 40 minutos para cada palestrante, seguido por tempo para debates e perguntas dos participantes.

Romualdo Sarcedo dividiu sua fala em quatro momentos, falando de sua vivência, com foco no didatismo, daquelas pessoas que vão à busca do aprendizado por sua conta própria, e não através de uma escola qualquer. Citou alguns ícones da história, a exemplo de Leonardo da Vinci, Machado de Assis, Hood Alen, Bil Gates, além de citar brasileiros, como Fernanda Monte Negro, Paulo Autran e Antonio Fagundes, que foram se desenvolvendo por conta própria, sem ter a formação em teatro.

Sarcedo disse que fazia jornalismo na Unimep, quando começou a fazer teatro, na "turma do Chapéu", onde começou a fazer parte do grupo e se encantou com aquele universo, nos seus 18 anos de idade, onde tudo aquilo o conquistou. Logo em seguida, entrou na Escola Sud Mennucci, em trabalho pelo Estado.

E, nos primeiros anos de 1980, com foco no segmento teatral, começou a participar de tudo, em busca por formação, sem estar numa faculdade, embora reconhecendo a importância da formação frente às oportunidades.

"Tinhamos a IAD, 1948, depois Unicamp, setor de artes cênicas, em 1976, depois teve Macunaina, anos 70. De cara me vi na condição de sobreviver", destacou Sarcedo, retratando uma época em que começou aos poucos a fazer trabalhos, em apresentações intercaladas por períodos, em vivências terríveis, quando de repente, somado a tudo à sua frente, até aparecer os bicos, que incluiu trabalhos de garçom, em bareas, até chegar o ano de 1988 onde começou a produzir e se sair melhor.

"Começei a participar de tudo na área, nas primeiras produções, do teatro infantil, da importanica de fazer teatro para as crianças, no despertar de processo infantil, no que foi o projeto Tim & Tam. Foi minha escola de produção, em mais de 300 participações. Aprendi muito, mas sempre querendo ser ator", relembra, porém, considerando que a situação de produzir e divulgar o levou à uma certa 'prisão', devido aos lugares mais inusitados de apresentações, como em garagens, escolas e praças.

Romualdo Sarcedo também relatou sobre produção local onde teve oportunidades de fazer trabalho com a atriz renomada, Fernanda Monte Negro, na divulgação de peça que percorreu diversas cidades, onde também passou a ter experiência como administrador da Companhia.

Segundo Sarcedo, hoje um curso de graduação é vital. Lembrou de momentos que teve nos anos 90 onde foi convidado a ser somente produtor, onde a vida o afastava do palco, pois este é o lugar onde se encontra de fato. Também lembrou do Grupo Garapa, em reencontro emocionado, onde até hoje está vivo em sua memória o sentimento das pessoas presentes, o cheiro da madeira e outras estuturas do espaço físico.

Para Sarcedo, a internet não substitui o teatro real, sendo que as pessoas necessitam que tudo volte ao normal. Com relação à pandemia do coronavírus, Sarcedo entende que precisamos vencer esta guerra.

Sarcedo também comentou sobre experiência como diretor de teatro, onde aprendeu outra faceta, de estar do lado do funcionário, que disponibiliza o espaço, frente às dificuldades de orçamento e problemas internos diários, onde acumulou várias funções, incluindo a de motorista e, atuando também na montagem e desmontagem dos palcos. Também realçou a importância do ator conhecer as bases, a exemplo da construção de uma casa, que começa pelo alicercere, para depois realçar voos mais altos, passando pelo conhecimento, na leitura dos grandes atores e espetáculos que são a sustentação desta arte.

Sarcedo também falou do aprendizado nas produções, onde hoje pode calcular os horários, de viagens, problemas de montagem, em noção com o tempo, enfatizando que há que se ter seriedade, para não chegar atrasado, e sempre ter disciplina. "Embora não fazendo faculdade busquei muita coisa", disse, lembrando que nos anos 90 a 2000 viajou muito com a Companhia.

Sobre a condição atual da pandemia, Sarcedo diz que está tentando lidar com esta profunda tristeza, onde o Facebook virou obituário, num pesadelo que estamos vivendo. "Temos que sobreviver, é uma guerra. Aproveite este tempo para adquirir conhecimento. Que bom que temos a internet, mas isso não vai substituir os palcos, os espaços sagradas das arenas", disse.

Sarcedo ainda falou de espetáculos que levou para vários públicos, como nas cidades de Santo Andre e São Bernardo do Campo e até em Londrina, no Paraná, onde teve que lotar teatros para cobrir os custos com patrocínios. "O lema meu é entender que preciso do dinheiro, mas não faço qualquer coisa, para obter bilheteria.. Onde passei deixei o público interessado em assistir teatro", disse.

"É um pouco da história de sobrevivência que tive que enfrentar, antes que aparecessem os editais e projetos, teatro empresa, área ambiental, Sesc e outras áreas de atuação", concluiu o artista.

Finalizando a condução dos trabalhos na apresentação de Romualdo Sarcedo, Jhoão Scarpa lembrou de uma ocasião em que foi entrevistado pelo Jornal de Piracicaba, onde a repórter lhe perguntou qual era seu ídolo, sendo que a resposta foi pronta e direta: Romualdo Sarcedo, "dado ao seu legado em manter vivo a luta do teatro", disse.

Fátima Monis - a artista iniciou suas considerações focando a experiência de 13 anos frente às aulas de teatro pelo Sesi-Piracicaba, em cursos formais, que não tem a pretenção de formar profissionais. Citou que fez magistério e sempre gostou de comunicação, nos anos 80, trabalhava na Câmara de Vereadores, e também fez o curso da Ação Cultural, e com formação também pela Unicamp, o que resultou na montagem de curso para pessoas que gostam de teatro.

Monis relata que sempre gostou muito de estudar, era artista amadora e nunca tinha pensado em viver da arte, sendo que foi a partir disso que passou a conhecer os bastidores, onde o teatro amador foi o primeiro passo, em oportunidade das pessoas se encontrarem.

Para Fátima, o artista se vira em muitas coisas. "Todo mundo é ator e atriz na hora que está no teatro. Tem gente que faz teatro porque gosta. O teatro exige pesquisa, pensar, discutir na montagem do texto, qual o figurino proposto e criação de texto coletivo. Quando se vai montar um espetáculo não é só a montagem do texto, há que passar por todo processo de estudo", disse.

Monis entende que o teatro amador morreu um pouco na cidade, sendo que nos anos 90 muitos grupos se profissionalizaram de fato, onde não se tinha tanta opção de cursos como hoje. A tendência era para o teatro amador, onde todo mundo era aprendiz, ou era um ator ou artista da cidade, onde se ia aprendendo com as pessoas, na prática, no fazer teatral.

Fátima também realça a importância da Escola do Legislativo, de ver a importância dos cursos, visto a falta de acesso, onde muita gente procura o curso de teatro para vencer a timidez, de se comunicar melhor, embora não seja este a destinação da arte, mas ela pode ter esta função também.

Monis lembra de aluno seu que se tornou perquisador na Esalq, destacando que muitas pessoas procuram o curso por gostar da linguagem e outros ensinamentos propiciados pelo curso, que também tem a função de formar o público, para entender as pessoas de teatro. Para Fátima, as crianças ainda estão sem as amarras e isso melhora a entrada no jogo. "O adulto vai construindo a própria imagem. Na arte a gente emoldura o caos, onde a gente vai se desconfigurando para depois se emoldurar. O processo criativo é caótico e busca a desconstrução, para trabalhar a criatividade.

Para Fátima, o teatro amador é escola de vida para todos. A formação profissional também se passa pelo conhecimento adquirido. O teatro amador é escola. A maior referência nossa está nos outros espetáculos. O artista tem ação integral, onde tem que ouvir músicas diferentes, com ampliação de repertórios, em experiências que engrandecem e dão sentido na formação, onde a gente até muda de vida, após a leitura de um livro ou assistir um espetáculo.

"Muitos de nós não vivemos de teatro, pois temos que fazer outras coisas. Sou professora, gosto de dar aulas. Teatro amador é importante na formação do artista pelo contato com a área. Fico triste em ver quem vai fazer curso direto e, não passa pela vivência do amador. O teatro amador é formador. Vários artistas se encontraram no teatro. A Paixão de Cristo sempre foi uma grande escola de teatro amador", disse.

Para Fátima, a arte teatral trabalha com gente, com o toque, na dinâmica do abraçar, nos jogos coletivos, frente a um mundo que é cinza e seco no falar. O teatro traz a questão do olhar diferente, do falar, do contato físico. Hoje o interior é muito privilegiado e cada vez mais se apresenta com qualidade de vida, para a gente que é artista.

Fátima também realçou a importância da Escola do Legislativo trazer esta discussão. "É muito boa porque a gente precisa fortalecer políticas públicas para a cultura, para que quem quer ser ator ou atriz possa ser, e para quem só quer fazer teatro para dar uns gritos e curtir, que possa fazer isso. Que a gente possa se encontrar", concluiu.



Texto:  Martim Vieira - MTB 21.939
Supervisão de Texto e Fotografia: Valéria Rodrigues - MTB 23.343


Escola do Legislativo Silvia Maria Morales

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