PIRACICABA, QUARTA-FEIRA, 29 DE JUNHO DE 2022
Aumentar tamanho da letra
Página inicial  /  Webmail

15 DE JUNHO DE 2022

"É preciso igualdade para falar de meritocracia", diz pesquisador


Falar em meritocracia, sem considerar as condições e o contexto, "não faz sentido", disse o cientista político Tiago Lazier, durante roda de conversa, nesta tarde (15)



EM PIRACICABA (SP)  

Salvar imagem em alta resolução

O cientista político Tiago Lazier (à esquerda) e o mediador Marcelo Bongagna durante roda de conversa na Escola do Legislativo na tarde desta quarta-feira (15)





“Mérito e Democracia: Em qual sociedade merecemos viver? ”. Esse foi o tema da roda de conversa promovida on-line pela Escola do Legislativo Antônio Carlos Danelon – Totó Danelon - da Câmara Municipal de Piracicaba (SP), na tarde desta quarta-feira (15).

Como facilitador, foi convidado o doutor em Ciência Política pela USP (Universidade de São Paulo) e mestre em Economia Política pela Leuphana Universität, da Alemanha, Tiago Cerqueira Lazier. A mediação foi do jornalista e professor universitário, Marcelo Bongagna.

Diretor do Ipedd (Instituto Piracicabano de Estudos e Defesa da Democracia) e observador do discurso da meritocracia, Lazier refletiu o fato de que temos “resposta padrão”, “de modo automático”, para o nosso esforço individual. “Isso não surgiu agora, porque é parte da nossa preocupação com a individualidade”, argumenta o pesquisador. “Como podemos falar de merecimento se nem todas as pessoas têm os mesmos direitos? ”, provoca.

A meritocracia, apesar de recente, surge no contexto do Iluminismo, quando a sociedade se moraliza e se urbaniza “caminhando na direção da sociedade que nós temos hoje”, contextualiza o cientista político. Na sociedade feudal, a grande maioria das pessoas nasciam camponesas e morriam camponesas, “sendo obrigadas a servir os senhores feudais. Você estava preso a trabalhar como mão de obra camponesa no território de pessoas que eram o seu senhor. Eles (senhores feudais) estavam acima de você e tinham ‘direitos’ sobre sua vida ”, complementa Lazier.

No ambiente corporativo, argumenta o mediador, as pessoas acreditam que a meritocracia seja a maneira mais justa de promover um trabalhador. “Isso tem origem na estrutura militar, que você é promovido pelo tempo que você está servindo. Ao longo da trajetória, a pessoa entra como soldado e pode chegar a general. De uma maneira geral a disputa que existe no mercado de trabalho, o capitalismo impõe a lógica de que aquele quem tem mais títulos têm muito mais chances de galgar um posto de uma companhia do que aquele que não teve supostamente nada”, contribuiu Bongagna.

Uma outra colocação partiu do escritor e doutor em História Social pela PUC-SP, Rafael Gonzaga. “O Elon Musk” – diretor da Tesla Motors – um dos empreendedores do ramo automotivo mais ricos do mundo -   “fala que é rico porque ele merece. O pai dele era dono de minas de esmeraldas, as pessoas se esquecem que ele ficou rico em cima de muita gente. A ideia de mérito torna-se invisível a essas diferenças, esconde essa realidade material, sendo que as pessoas não partem do mesmo lugar. A riqueza é escoada para apenas uma direção, sendo que o lugar que ela vai chegar a meritocracia”, argumenta Gonzaga.

“Igualdade de oportunidade é a condição mínima para falar de reconhecimento”, diz Lazier ao fazer comparação de uma pessoa que fica de duas a quatros horas por dia no trânsito de uma cidade grande, tomando como exemplo, a cidade de São Paulo, em relação a uma outra pessoa que goza de condições mais favoráveis. “Quais as condições que essa pessoa tem de dizer a individualidade dela para ela e também de melhorar as condições de vida em relação, por exemplo, ao Elon Musk? ” “Muito poucas”, pontua.

O cientista político contextualiza que muitos defendem a meritocracia “e não olham às condições”. “Só depende de a pessoa subir de vida, claro que isso é uma ideia absurda”, porque depende de outros fatores e não exclusivamente da vontade e do objetivo do cidadão.

CONFORMISMO - Como provocação, o mediador citou o fato de muitas pessoas se sentirem conformadas pelo fato de acreditarem que as oportunidades para o trabalho e o estudo não são para elas. “As pressões acabam produzindo à submissão”, fundamenta Bongagna.

Tiago Lazier conclui que focar no esforço individual, sem considerar o contexto, a condição “não faz sentido”. Ele acredita que haja uma resposta mais forte do ponto de vista do discurso político: “De fato você merece, você trabalha, e você merece em virtude de você existir, mas será que as condições estão adequadas para fazer jus ao merecimento? "

A grade de cursos e palestras da Escola do Legislativo da Câmara Municipal de Piracicaba pode ser consultada no escola.camarapiracicaba.sp.gov.br/cursos. Outras informações pelo 3403-7129.

 

 

 



Texto:  Marcelo Bandeira - MTB 33.121
Supervisão:  Rodrigo Alves - MTB 42.583


Escola do Legislativo

Notícias relacionadas