27 de março de 2026

Mulheres relatam 'vazio de informações' para lidar com a chegada da menopausa

Grupo tenta reverter cenário com acolhimento, empatia e orientações adequadas para mostrar que, com mudanças de hábitos, etapa pode ser encarada com qualidade de vida

Fase marcada por transformações que afetam corpo e mente, a menopausa foi o centro de um encontro promovido pela Escola do Legislativo, da Câmara Municipal de Piracicaba, na tarde desta sexta-feira (27). Diante da constatação de que há um "vazio de informações" sobre o tema, um grupo de mulheres decidiu se unir para tentar reverter esse cenário e mostrar que, com mudanças de hábitos, a vida após os 40 anos pode ser encarada com mais qualidade.

Liderada pela criadora de conteúdo Luciane Borges, a comunidade "50 Tons de Glamour" apoia outras mulheres com acolhimento, empatia e orientações adequadas sobre a menopausa. Como prova disso, o grupo produziu o documentário "Além dos sintomas: o vazio da informação na menopausa", reunindo depoimentos de seis mulheres que vivenciam o período e contribuições de outras sete profissionais da saúde, entre nutricionista, endocrinologista, sexóloga, psicóloga, farmacologista e duas ginecologistas.

O conteúdo audiovisual, que teve parte exibida durante o evento da Escola do Legislativo, terá a íntegra disponibilizada ao público em geral a partir do dia 30, no YouTube da comunidade (/50tonsdeglamour44). No vídeo, mulheres convidadas a participar da produção listam as sensações percebidas com a chegada da menopausa, como calor, irritação, enxaqueca, perda de libido, secura vaginal e ganho de peso. "É como se fosse um furacão", resume uma das entrevistadas.

Luciane Bueno disse que a ideia de se debruçar sobre o tema surgiu diante da dificuldade de encontrar apoio e fontes de conhecimento. "Vivi uma época difícil quando entrei na menarca, pois tínhamos pouca informação. Dessa vez, com a menopausa, disse: 'Não vou passar por essa fase da vida sem aprender' e comecei a pesquisar muito. Descobri que havia um vazio de informações sobre a menopausa, isso seis anos atrás. E foi aí que criei a comunidade, que é um projeto social, gratuito, com o intuito de oferecer às mulheres orientação e informação de qualidade para que possam passar pela menopausa com alegria, disposição e qualidade de vida", explicou.

A criadora de conteúdo contou como enfrentou o início da menopausa. "Minha experiência é de quando eu ia pesquisar no Google sobre o que estava sentindo: confusão mental, insônia, irritação, muito choro. Encontrava muita informação negativa: eram somente perdas, sendo a única coisa garantida o ganho de peso. Pensei: 'Não é possível que seja só isso. Eu estava com 49 para 50 anos e me perguntei: 'Se vou viver mais 30 anos, vou viver assim, sem energia para nada, sem vontade de levantar da cama, brigando com todo mundo? Se eu não estava me reconhecendo, imagine meu marido diante dessa 'nova pessoa'?", relatou Luciane Bueno.

"A menopausa é um momento da vida que requer que a gente pare e olhe para si mesma. A mulher, culturalmente, cuida de todo mundo, mas quem cuida dela? Quem vai dar voz àquilo que ela está sentindo? Há profissionais da saúde que não têm essa visão ampla sobre a menopausa. Fui a quatro médicos; cheguei ao último e disse: 'Não me venha falar que não tem o que fazer'. Ainda é difícil encontrar um grupo muito amplo de profissionais da saúde que vão entender isso, então é a mulher que tem de dar força à sua voz, buscar informação e alcançar qualidade de vida. É uma fase em que precisamos olhar para nós", continuou a criadora de conteúdo.

Transmitido ao vivo pelo canal da Escola do Legislativo, o evento desta sexta-feira também contou com a presença de público na sala de aula no prédio anexo da Câmara.

Uma das mulheres participantes relatou dificuldade para obter orientação médica adequada para lidar com a menopausa. "Eu tinha uma fadiga estranha, um desânimo muito grande. Não tinha um diagnóstico. Agora achei um profissional que começou a me ajudar, a pedir exames mais complexos que ninguém pedia, inclusive os hormonais específicos. Foi constatada a queda total do estrogênio e que meus ovários já foram totalmente retraídos. Agora comecei a fazer a reposição hormonal e comecei a sentir um pouco de melhora. É realmente muito difícil achar um ginecologista que vá fundo nessa questão", comentou.

A sexóloga Sarita Milaneze observou que a falta de informações leva a mulher, no período em que surgem os primeiros sinais da menopausa, a procurar ajuda para cada um dos sintomas, isoladamente. "Ninguém fala que é um combo completo, nenhum médico olha como um todo. Quando se vê que estamos tendo mais de três sintomas juntos, deve-se pensar: 'Opa, tem alguma coisa de errado'."

A necessidade de adotar hábitos saudáveis, como equilíbrio na alimentação e atividade física frequente, foi defendida por quem hoje aprendeu a lidar com os efeitos da nova fase da vida. "Temos que olhar para nós mesmas. Foi o olhar para mim que me fez cuidar de mim e ser protagonista da minha historia e da minha saúde", disse uma das mulheres da plateia, ao mencionar que, com a decisão tomada, partiu em busca de melhores hábitos, como alimentação saudável, higiene do sono e prática de atividade física.

Solange Spironello, uma das personagens ouvidas no documentário, falou como a participação na comunidade criada por Luciane Borges a ajudou na nova etapa. "Comigo, a menopausa começou há três anos, com todos os sinais: fogacho, perda de libido, queda de cabelo, dores articulares. Gabaritei, com mais ou menos de 13 a 14 sinais", brincou. "E era uma fase em que eu estava, aos 53 anos, encerrando a carreira profissional e lidando com o 'ninho vazio', só chorando. Conheci a mentoria e hoje sou uma pessoa muito feliz; nela, a gente faz muita amizade e sente que não está sozinha."

Coordenadora da Escola do Legislativo, a vereadora Silvia Morales (PV), do mandato coletivo A Cidade é Sua, elogiou a forma encontrada pela comunidade para abordar o tema  e destacou o espaço aberto pela Câmara para o compartilhamento dos relatos. "Na Escola do Legislativo debatemos várias questões relativas à cidade e é muito importante abrir esse debate no Mês da Mulher. Temos aqui uma troca de vivências daquilo que todas nós passamos", salientou.

Texto: Ricardo Vasques - MTB 49.918
Supervisão: Rodrigo Alves - MTB 42.583