03 de dezembro de 2025
Fórum debate saúde da população negra e destaca racismo estrutural
Próxima reunião será em fevereiro com apresentação sobre sintomas coletivos em pacientes negros em clínicas psicológicas particulares
O lançamento do Fórum Permanente de Saúde Integral da População Negra, idealizado pela vereadora Rai de Almeida (PT), reuniu participantes que defenderam a criação de políticas públicas específicas e a necessidade de dados que comprovem desigualdades no atendimento. Rai de Almeida afirmou que o fórum é resultado de “um trabalho conjunto” construído ao longo de reuniões e debates. Segundo ela, a iniciativa é também o resultado de uma audiência pública realizada neste ano sobre a saúde da população negra.
Rai de Almeida presidiu os trabalhos. Também participaram do encontro os representantes da sociedade civil: Graziela Silva, doula e agente comunitária; Noedi Monteiro, professor e historiador; Pâmela Cristina Oliveira, psicóloga; Ecléa Bravo, médica e integrante do grupo de Saúde da vereadora Rai; Cláudia Regina Coneglian, também integrante do grupo de Saúde da vereadora Rai; Aldelise Nascimento, jornalista; e Isely Gusmão, enfermeira da família; além da assessora parlamentar da vereadora Rai, Cláudia Novolette.
O Fórum tem como objetivo discutir e acompanhar ações relacionadas à saúde da população negra no município, com representantes de órgãos públicos, entidades sociais e conselhos municipais, para observar o andamento das políticas públicas já existentes e levantar informações sobre questões que afetam a saúde da população negra. Outro objetivo é levantar dados locais, promover debates e indicar possíveis encaminhamentos para melhorar o acesso e a oferta de serviços.
RELATOS – Entre os relatos, a vereadora Rai de Almeida elencou diversas doenças que afetam a população negra de forma única e “sequer são ensinadas aos médicos”, como a anemia falciforme. Ela também mencionou frequentes erros de diagnóstico por desconhecimento e criticou a “negligência em ter políticas públicas de saúde voltadas especificamente para a população negra”. Defendeu que o fórum acompanhe e pressione o poder público para melhorar o atendimento.
A médica Ecléa Bravo destacou prontuários que evidenciam atendimento desigual e citou dados que mostraram como o racismo estrutural adoece trabalhadores. Ela relatou que, como exemplo, em fundições, “os negros são escolhidos para trabalhar na frente do fogo porque acham que são mais resistentes ao calor”.
O professor e historiador Noedi Monteiro, do CNAB (Congresso Nacional Afro-Brasileiro), mencionou dificuldades de acesso à saúde e citou o livro Doenças Africanas no Brasil. Também lembrou a trajetória de um dos grandes médicos da história de Piracicaba, André Ferreira dos Santos, conhecido por Dr. Preto. Ele saiu de Piracicaba devido ao racismo, apesar de ter curado e tratado diversas pessoas ilustres da cidade, e se mudou para o Rio de Janeiro, onde construiu um hospital com material e mão de obra de Piracicaba. O professor citou ainda a falta de preparo de profissionais da área de saúde, atualmente, para atendimento da população negra.
Ele estima que a comunidade negra local tenha entre 150 e 160 mil pessoas e defendeu formação específica de profissionais de saúde, ressaltando que o reconhecimento do racismo estrutural pelo STF (Supremo Tribunal Federal) deve impulsionar ações, lembrando que jornais como Folha e Valor Econômico trazem estatísticas que podem ser levadas às comunidades.
A psicóloga Pâmela Oliveira afirmou que sonha com um espaço de reflexão sobre o “adoecimento crônico da população negra, principalmente entre os jovens” e reforçou que o fórum deve ser “um processo de construção coletiva”. Ela destacou que pesquisas são essenciais para embasar a pauta: “quando apresentamos dados, temos como provar”. Para ela, é necessário iniciar com letramento racial e construir grupos de trabalho intersetoriais, e “todas as esferas da negritude precisam ser discutidas”.
Outra participante, Isely Gusmão, enfermeira da família que auxiliou a vereadora Rai na elaboração da proposta do Fórum, avaliou a iniciativa como “uma porta aberta”, com a expectativa de que pautas sejam levadas a quem decide. Ela afirmou que o racismo na saúde é subjetivo e envolve “menos encaminhamentos, menos exames, menos tempo de consulta”. Também citou a ausência de dados locais e lembrou que, mesmo sem registros fatais de mulheres negras no parto, no processo da gestação há violência obstétrica e racismo.
Aldelise Nascimento, jornalista, relacionou os debates à PEC (Projeto de Emenda Constitucional) da Reparação, aprovada pela comissão especial da Câmara dos Deputados, em Brasília, que analisa a criação do Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial, inserindo na Constituição um capítulo dedicado à promoção da igualdade racial e criando um fundo voltado à reparação econômica e à inclusão da população negra.
Já Cláudia Novolette, assessora de Rai de Almeida, disse que o fórum é “o start de um novo trabalho”. Ela ressaltou que, além das violências comuns às mulheres, “a mulher negra sofre a estrutural” e destacou a necessidade de sensibilizar instituições como Polícia Militar e Guarda, pois “a população negra tem medo de sair na rua porque é alvo”.
Rai encerrou enfatizando três objetivos centrais do Fórum, sendo eles: promover e realizar campanhas educativas voltadas à prevenção e promoção da saúde da população negra, em parceria com escolas, associações de moradores e coletivos culturais da cidade; solicitar estudos e informações junto às universidades, instituições e ao Poder Executivo; e incentivar a produção de diagnósticos sobre a saúde da população negra em Piracicaba, em parceria com universidades, faculdades e institutos de ensino.
Como encaminhamento, a vereadora afirmou que irá sensibilizar as instituições e entidades ligadas à população negra a encaminhar os nomes de representantes para o fórum e a próxima reunião, que será em fevereiro de 2026 e também contará com apresentação da psicóloga Pâmela Oliveira, com o tema: Construção de um PTS (Projeto Terapêutico Singular) com os contextos dos sintomas coletivos em pacientes negros em clínicas psicológicas particulares.
Supervisão: Rodrigo Alves - MTB 42.583
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