22 de abril de 2026
Economia criativa e solidária ganha destaque em evento na Câmara, nesta quarta
Iniciativa do Fórum Permanente de Economia Criativa, proposto por Silvia Morales, abre a Semana Municipal da Criatividade e Inovação
As potencialidades de novos arranjos produtivos capazes de fomentar a economia local e, ao mesmo tempo, manter laços comunitários e de confiança entre os indivíduos que criam, produzem e comercializam seus produtos foram a tônica de encontro promovido na tarde de quarta-feira (22) pelo Fórum Permanente de Economia Criativa do Município de Piracicaba, proposto pela vereadora Silvia Morales (PV), do mandato coletivo A Cidade é Sua, alusivo à Semana Municipal da Criatividade e Inovação e ao Dia Mundial da Criatividade e Inovação (World Creativity and Innovation Day), celebrado em 21 de abril.
"O nosso evento vem junto com o Dia Mundial da Criatividade, que é um movimento muito bacana, o maior movimento colaborativo do mundo, reconhecido pela ONU. Ele sai da questão do modelo tradicional e busca propiciar maior inserção de produtores locais, produtores culturais”, disse a vereadora na abertura do evento.
Realizado no Salão Nobre da Câmara Municipal de Piracicaba, o encontro contou com uma palestra sobre economia criativa ministrada pela Gestora de Projetos de Empreendedorismo Feminino, Inclusão Produtiva e Economia Criativa do Sebrae Piracicaba, Débora de Paula Rodrigues, e com uma roda de conversa sobre economia solidária, com a participação de Hamilton Rocha, da Rede Paulista de Bancos Comunitários, e de Luísa de Oliveira, Agente de Educação Ambiental do Sesc Piracicaba.
Economia Criativa - A economia criativa, segundo Débora Rodrigues, deve ser entendida a partir de uma diversidade de dimensões, com contribuições para o desenvolvimento econômico, social e cultural.
Ela bebe, segundo a gestora, de um contexto permeado pela globalização e pela tecnologia, menos focada em ativos físicos e com maior ênfase no conhecimento, em ideias e na inovação: “A criatividade se solidifica como um ativo econômico”, explica.
De acordo com ela, a economia criativa parte da valorização da jornada do indivíduo como um motor de mudança, mas que traz grandes impactos coletivos.
“A economia criativa representa 3,1% do PIB Global. No Brasil, 3,11%. Ela representa 6,2% dos empregos do mundo e 7% dos do Brasil, e é majoritariamente realizada no país por 97% de micro e pequenas empresas”, disse.
Dentro desse contexto, surgem as chamadas indústrias criativas, que podem se manifestar em diversos eixos, como as artes cênicas, produções audiovisuais, artesanato, rotas e espaços culturais, publicidade, criação de games e tantos outros.
“Diante de todas essas atividades, é importante pensarmos na intensidade criativa dessas atuações, como são realizados esses processos, como por exemplo a inovação, a resistência à mecanização, a não repetição e não uniformização de função, a contribuição criativa à cadeia de valor e a interpretação, para além da mera transformação”, acrescentou a especialista.
Ela, por fim, apresentou o "Crie Sebrae", uma iniciativa voltada ao impulsionamento por meio de ações de capacitação, acesso a mercado e preparação para agentes culturais, empreendedores criativos e gestores públicos.
Economia solidária e bancos comunitários - Se a criatividade é indispensável para se operacionalizar uma nova ideia ou um novo negócio, encontrar um cenário economicamente viável é igualmente indispensável.
Nesse sentido, para além da lógica do sistema financeiro vigente, muitas vezes inacessível para parcelas significativas da população, surge uma nova forma de economia, mais pautada na solidariedade e na vontade de promover o desenvolvimento coletivo: a economia solidária, promovida por meio de bancos comunitários.
"É uma tradição que vem de antes da República, no Brasil e no mundo, desde os processos de industrialização com a formação do operariado, onde, junto com as cooperativas, tinham grupos de finanças solidárias dos trabalhadores”, explica Hamilton Rocha, coordenador-executivo da Rede Paulista de Bancos Comunitários.
A economia solidária surge, então, como a organização coletiva da produção e das finanças, baseada em laços de confiança e cooperação, com o objetivo de gerar dignidade e sustentabilidade territorial, para além de uma lógica pautada exclusivamente pela competição.
E, para operacionalizar essa relação financeira, surgem os bancos comunitários, uma tecnologia social voltada a garantir a dinamização da economia local e que o dinheiro dessas relações econômicas mantenha-se dentro daquela comunidade.
De acordo com Rocha, os bancos comunitários baseiam-se em três pilares: a criação de um fundo rotativo solidário, que consiste em um fundo de crédito criado pela própria comunidade, que junta esse dinheiro para emprestar para quem precisa de crédito; crédito com juros baixos, somente para corrigir perdas inflacionárias e manter a estrutura do banco comunitário; e a criação das chamadas moedas sociais, uma espécie de dinheiro que circula apenas dentro de determinada comunidade.
“A partir de um acordo com o Banco Central, que regulamentou autorização para criar moedas sociais locais, o Banco Comunitário pode criar uma moeda que circula no território, em uma população nunca superior a 65 mil pessoas", explicou.
Fazendo analogia com uma quermesse, ele detalha o funcionamento desse tipo de moeda.
“Quando você vai na quermesse, você tem que tirar a fichinha para comprar cachorro-quente, quentão, pamonha, etc. E essa moeda, esse papelzinho, você pode gastar só nas barraquinhas dessa quermesse. E, no final, você troca essa ficha por dinheiro que foi rodado lá. Qual é a função na quermesse e qual é a função na comunidade? É justamente que o dinheiro fique na comunidade, que você possa pegar o dinheiro que você recebeu pela compra de um serviço ou de um produto e gastar em outro estabelecimento dentro da comunidade. Isso ajuda a fixar o dinheiro no território."
Ele também defende a implementação de um modelo de desenvolvimento econômico local mais focado na autossuficiência da comunidade, buscando empreendimentos que permitam a ampliação e melhoria do coletivo, que devem ser implementadas a partir da realidade vivida por aquele grupo.
“Eu quero montar aqui uma fábrica de balão. Beleza, mas isso é uma necessidade da comunidade? Você pode até ganhar dinheiro com isso, mas trabalhando com uma comunidade externa, porque a minha comunidade não precisa de balão, ela precisa de outras coisas”, exemplificou.
Nesse sentido, ele aponta como estratégias a estruturação de redes e negócios voltadas à melhoria comunitária, em eixos como segurança alimentar, acesso a energias renováveis, água e saneamento, finanças solidárias e ação cooperativa.
“A gente considera, com todo o respeito, que o bolo de pote não vai gerar uma economia sustentável com dignidade dentro da comunidade. A gente procura furar essa dinâmica com atividades que são de ponta na comunidade”.
Engrenagem - A aplicação desses princípios da economia solidária foi, na sequência, tema da exposição de Luíza de Oliveira, do Sesc Piracicaba, que apresentou o Projeto Engrenagem, iniciado ainda em 2021, durante a pandemia, com foco na identificação de iniciativas locais que atuam sob o horizonte da cultura, da cidadania e da sustentabilidade.
O projeto começou fazendo um mapeamento dessas iniciativas, condensadas em um mapa virtual, que identificou 83 grupos.
Mais à frente, a ideia foi tentar conectar essas iniciativas, promovendo o conhecimento mútuo e a possibilidade de ações conjuntas, uma espécie de coletivo de coletivos.
A partir daí, em 2022 e 2023, foram realizados ciclos de encontros e formações com os membros dessas iniciativas, fomentando uma “rede viva de diálogo, escuta, trocas e registros colaborativos, acessando os saberes e experiências da própria coletividade, para responder questões de grande relevância para as organizações e as comunidades”, explicou Luíza.
A partir desses encontros formativos, por iniciativa dos próprios membros, foi instituído o Fórum Permanente do Engrenagem, com gestão autônoma, e que acabou por constituir uma espécie de pedagogia própria, que sistematiza a sua estruturação.
"A gente até ousa dizer que nós instituímos, pensamos, elaboramos uma ‘pedagogia engrenagem’ a partir do nosso método de funcionar”, disse.
O método parte do mapeamento, passa pela conexão e diálogo entre os pontos do mapa, estrutura trocas e autoformação, que resultam na autogestão que, por fim, vai possibilitar o fortalecimento do território.
O Engrenagem já realizou diversas ações, como feiras de trocas e de economia solidária, que permitiram, inclusive, o uso de moedas sociais e o fortalecimento de pequenos negócios e iniciativas.
Ao término do evento, houve a entrega de diplomas honoríficos a Luíza de Oliveira, pela idealização e coordenação do Projeto Engrenagem, além de representantes de diversos coletivos que participaram do projeto.
Mais atividades - Na sexta-feira (24), haverá uma roda de conversa sobre inovação no setor público, abordando os temas "IEG-M e Observatório do Futuro: como os municípios paulistas podem inovar para avançar positivamente na Agenda de Desenvolvimento Sustentável", "Contribuições caipiras para a Agenda 2030" e "Sistema Sentry SOS - Muralha Digital".
Os três assuntos serão apresentados, respectivamente, por Leandro Dall Olio, do Observatório do Futuro do TCE-SP (Tribunal de Contas do Estado de São Paulo); por Janaina Barretta, do Núcleo ODS da Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", da Universidade de São Paulo); e por Gisson Amorim, da Divisão de Articulação da Secretaria da Guarda Civil Metropolitana.
Supervisão: Rodrigo Alves - MTB 42.583
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