13 de abril de 2026
Câmara realiza simpósio sobre autismo em adultos e desenvolvimento da fala
3º Simpósio sobre Autismo ocorreu no Salão Nobre da Câmara e contou com palestras sobre comunicação (verbal e não verbal), TEA em adultos e inclusão
O desenvolvimento da fala e comunicação, autismo e o diagnóstico tardio foram os temas discutidos no 3º Simpósio sobre Autismo, realizado na noite desta sexta-feira (10) no Salão Nobre da Câmara Municipal de Piracicaba.
De iniciativa do vereador André Bandeira (PSDB), autor do decreto 1/2024, que instituiu a “Frente Parlamentar de Proteção às Pessoas com Transtorno do Espectro Autista e suas famílias", o simpósio contou com a participação de três palestrantes que falaram sobre o poder da interação familiar, o sofrimento do adulto sem diagnóstico e a importância de ouvir e acolher as mães atípicas.
Na abertura do evento, André Bandeira enfatizou que, quando se defende a bandeira do autismo e da inclusão, não é uma questão restrita ao autismo, nem ao cadeirante, nem ao deficiente visual, auditivo ou intelectual. “A gente quer uma sociedade melhor para todo mundo, em todos os lugares, a participação plena de todas as pessoas, homens, mulheres, independente da religião, independentemente da cor da pele, independente do que for”, afirmou.
Por mais que se queira uma sociedade inclusiva, o vereador afirmou que ainda é necessário “bater nessa tecla”, falar sobre o tema e ampliar o debate. Para ele, é preciso mais representação, não só nas câmaras municipais, mas na Assembleia Legislativa e no Congresso Nacional. Além disso, é preciso que mais gente trate do assunto porque ele é fundamental. “Quem não vive essa realidade, de alguma forma, em algum momento vai viver”, disse.
A primeira palestra da noite foi ministrada pela fonoaudióloga Renata Bertagnoli, autora de métodos de estimulação da fala. Ao desmitificar crenças sobre o tempo que as crianças devem começar a falar, ela afirmou que os meninos têm uma chance maior de ter qualquer alteração de linguagem e, por isso, fazem parte do grupo de risco e precisam de mais estímulo. “Uma criança começa a falar entre um ano a um ano e meio. Fora deste intervalo, precisa começar a buscar ajuda”, declarou.
A palestrante diferenciou estimulação de tratamento. Segundo ela, todos precisam de estimulação da fala, mas há pessoas que precisam de estimulação e tratamento. E essa estimulação é feita pela família e a intervenção pelo profissional. "Eu não consigo trabalhar sem a família", afirmou, ressaltando a importância do trabalho conjunto com os familiares.
Renata também fez dinâmicas com a plateia e deu exemplos práticos de como os pais podem se comunicar melhor com as crianças: usar contato visual, variar o tom de voz, não gritar e, acima de tudo, brincar. "A linguagem nasce da interação", disse. Ela alertou que um dos grandes erros na estimulação é forçar a criança a falar e criticou o excesso de perguntas na tentativa de diálogo porque é preciso esperar o tempo de resposta da criança.
De forma didática, apresentou o método ABC da fala: ação correta (saber brincar), brincar no chão (na altura da criança) e continuação (repetição, não parar). “Depois do ABC, vem o diálogo”, disse. A fonoaudióloga ainda apontou que a criança sempre responde – mesmo que seja chorando ou saindo correndo – e que cada resposta é um avanço. "Afinal, a comunicação é um direito de todos", concluiu.
"Barreiras Invisíveis e Avaliação Biopsicossocial no TEA Adulto" foi o tema da segunda palestra, ministrada por Rebeca Paschoal Padulla. A palestrante relatou que o diagnóstico de TEA (Transtorno do Espectro Autista) do adulto raramente é o primeiro e que existe uma trajetória de diagnósticos antes. “A gente começa muitas vezes com uma ansiedade, com uma depressão, com TDAH porque o profissional avalia muitas vezes o sintoma isolado e não enxerga padrão, trata a consequência e não a base”, disse. Para ela, quando se fala TEA, estamos falando de funcionamento.
Rebeca Paschoal Padulla apresentou os principais sintomas vivenciados: ansiedade; sobrecarga sensorial; desatenção, que pode se manifestar como hiperfoco seletivo; isolamento, muitas vezes interpretado como depressão, mas que pode ser exaustão social; exaustão crônica, caracterizada por cansaço persistente, especialmente após interações sociais; e sensação de inadequação: “A pessoa chega à conclusão sobre si mesma de que há algo errado com ela. Por que para mim é tudo mais difícil? Por que eu não consigo ser como os outros? Por que eu me esforço tanto e, ainda assim, não encaixo?”.
Além disso, apresentou o conceito de masking, que é como atuar o tempo todo, observar como as pessoas falam e se comportar e reagir e copiar – “algo exaustivo”.
A palestrante apontou que, na Lei Brasileira de Inclusão (13.146/2015), a avaliação da deficiência, quando necessária, será biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar. Ou seja, não se trata apenas de um diagnóstico médico baseado no CID, mas de entender como a pessoa funciona, onde estão as barreiras que a impedem de participar plenamente da sociedade e quais são os apoios necessários.
Para Rebeca, o olhar precisa se voltar à singularidade de cada indivíduo. “Porque uma paralisia cerebral nunca é igual a outra, um autista nunca é igual ao outro. E aí você consegue olhar para a singularidade a partir da funcionalidade”, concluiu.
A terceira palestra da noite foi ministrada por Jorginho Mota, vereador de Guarulhos entre 2021 e 2024 e primeiro autista eleito para um cargo público no Brasil. Ele é autista nível 1 de suporte, com TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada) e altas habilidades, é pai de um garoto autista e esposo de uma mulher autista.
Jorginho contou sua trajetória: ele começou a andar e falar aos quatro anos de idade e sua mãe ficava com ele dentro da sala de aula até a sétima série.
Após relatar o bullying violento que sofreu na oitava série, que incluía tapas, socos, cusparadas e uma roda de agressores que apostavam quem o faria chorar, Jorginho contou que, posteriormente, ajudou no velório de um de seus agressores que havia sido morto a tiros.
Depois de descobrir a identidade de quem ajudou, o ex-vereador refletiu sobre de quem era a culpa por tudo o que passou na infância e concluiu que a culpa não era do agressor, nem da mãe, nem dos professores, nem do governo e nem dele – mas de todas as pessoas que não se importam com a inclusão. "É típico do ser humano falar de inclusão, defender uma causa quando ele tem alguém muito próximo dele que tenha algum tipo de deficiência", disse.
Jorginho dedicou parte da sua fala à própria mãe. Revelou que o maior medo dela, durante toda a vida, era morrer e deixá-lo – especialmente por ele ser autista e, aos olhos dela, inocente demais para o mundo. Em 2015, ela descobriu um câncer no cérebro e, em seus últimos momentos, ele cuidou dela, retribuindo todo o cuidado que ela teve com ele. “Uma mãe atípica tem que ser respeitada e, principalmente, aceita e, principalmente, ouvida e, principalmente, acolhida”, disse.
Compuseram a mesa de honra do evento: o vereador André Bandeira (proponente e presidente da mesa), a assistente social Camila Banzatto (coordenadora da ALMA – Associação de Pais e Amigos dos Autistas de Piracicaba), o vereador Jorginho Mota, a fonoaudióloga Renata Bertagnoli, a psicóloga Rebeca Paschoal Padulla, a fonoaudióloga Maria Lígia Brienza (proprietária do Espaço Integrado LIS) e a secretária municipal de Acessibilidade e Inclusão de Guarulhos, Mayara Maia, que também é esposa de Jorginho Mota.
O 3° Simpósio sobre o Autismo - Desenvolvimento da fala e comunicação, autismo e o diagnóstico tardio pode ser assistido na íntegra no vídeo presente na matéria.
Supervisão: Rodrigo Alves - MTB 42.583
Filmagem: TV Câmara
NOTÍCIAS RELACIONADAS
10 de abril de 2026
10 de abril de 2026
10 de abril de 2026
10 de abril de 2026
