26 de maio de 2026
Audiência pública sobre arborização tem cobranças ao Executivo e críticas à CPFL
Debate, na noite desta terça-feira, foi conduzido pela vereadora Silvia Morales
A Prefeitura e a CPFL Energia foram cobradas por suas ações no manejo da arborização urbana em Piracicaba, durante a discussão do tema em audiência pública promovida na noite desta terça-feira (26), no plenário da Câmara, em iniciativa da vereadora Silvia Morales (PV), do mandato coletivo A Cidade é Sua e autora do requerimento 515/2026.
Mais de 20 pessoas manifestaram-se ao microfone, no debate que reuniu parlamentares, representantes do governo Helinho Zanatta (PSD) e da CPFL Energia, professores da Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", da Universidade de São Paulo) e de outras instituições, integrantes do Comdema, do Comclima e de entidades ambientais e moradores de diferentes regiões da cidade.
Participaram da audiência pública a vereadora Rai de Almeida (PT), os vereadores Fábio Silva (Republicanos), Gustavo Pompeo (Avante), Zezinho Pereira (União Brasil) e, remotamente, Josef Borges (PP), além do secretário-executivo de Obras, Paulo Sérgio Ferreira da Silva, do secretário municipal de Agricultura, Abastecimento e Meio Ambiente, Mauricio Perissinotto, e do secretário-executivo de Meio Ambiente, Gustavo Martins.
A discussão girou em torno de temas como supressão de árvores, podas consideradas inadequadas, falta de planejamento urbano, necessidade de atualização do Plano Municipal de Arborização Urbana, divisão de responsabilidades entre secretarias municipais e as condutas da CPFL Energia e da Sellimp (Serviços de Limpeza Ltda.) —empresa que desde o início do ano cumpre o contrato emergencial para a realização de ações de manejo arbóreo em Piracicaba e que não enviou representantes à audiência pública, embora convidada a participar.
Ao abrir a audiência pública, Silvia Morales afirmou que o tema tornou-se urgente diante do aumento das reclamações da população sobre cortes e podas "drásticas". "O mandato coletivo, além de ser do Partido Verde, também integra a Comissão de Meio Ambiente, a Frente Climática e o Fórum de Arborização da Câmara. Temos acompanhado diversos casos de podas incorretas, supressões aleatórias e maus-tratos às árvores", afirmou.
A parlamentar citou casos recentes em diferentes pontos da cidade, como a rotatória da avenida Doutor Paulo de Moraes, o entorno da Escola Estadual "Dr. Prudente", o Parque do Mirante e o Engenho Central. Silvia Morales também criticou a reforma administrativa promovida pela Prefeitura em 2025, que transferiu a gestão da arborização urbana da área ambiental para a Secretaria de Obras. "A Lei Municipal de Meio Ambiente estabelece que a infraestrutura deve se adequar à arborização, e não a arborização à infraestrutura", observou.
Professor da Esalq, Bruno Monteiro Balboni destacou os benefícios da arborização urbana e lamentou que a cidade venha tratando suas árvores "muito mal" nos últimos anos, com podas equivocadas "Todo mundo quer estacionar o carro na sombra, mas ninguém quer plantar árvore", comentou. Ele ressaltou que a arborização pode reduzir a temperatura urbana entre 2ºC e 8ºC, além de contribuir para a infiltração da água da chuva, a diminuição de enchentes, a melhoria da qualidade do ar, a redução de ruídos urbanos e a valorização imobiliária.
Balboni defendeu planejamento de longo prazo, inventário arbóreo atualizado e escolha adequada das espécies plantadas —na sua opinião, caberia à Prefeitura a definição das mudas que, por exemplo, ornamentam a frente das casas, e não aos moradores, visto que, hoje, a falta de orientação possibilita a multiplicação, pelas ruas, de mudas inapropriadas, e até vedadas. "A murta virou a árvore preferida dos piracicabanos, mas ela é pequena, não faz sombra e hoje é uma espécie proibida no Estado de São Paulo", alertou.
O professor apresentou exemplos de manejo inadequado, como concretagem do entorno de árvores, podas em formato de "Y" e ausência de áreas permeáveis nas calçadas. "A árvore morre de velha, assim como nós. O correto é antecipar esse processo, plantar outra ao lado e substituir sem deixar a cidade desprovida de cobertura arbórea", explicou.
Pelo lado do Executivo, o secretário-executivo de Meio Ambiente, Gustavo Martins, explicou que, após a reforma administrativa de 2025, toda a parte de arborização urbana passou a ficar sob responsabilidade da Secretaria de Obras, Infraestrutura e Serviços Públicos. "Hoje, o Meio Ambiente atua nas autorizações de supressão de árvores isoladas, da porta da residência para dentro. Toda a arborização urbana está vinculada à Secretaria de Obras", explicou.
Já o secretário Maurício Perissinotto defendeu a união entre as áreas de Agricultura e Meio Ambiente na atual estrutura administrativa da Prefeitura. "Hoje não dá para trabalhar agricultura e meio ambiente separadamente. As pastas estão conectadas, trabalhamos muito próximos, temos muitos temas em comum", disse.
PARTICIPAÇÃO POPULAR - A participação popular dominou boa parte da audiência pública. Pesquisadores, ambientalistas e moradores fizeram críticas à falta de fiscalização e ao modelo atual de manejo das árvores. O pesquisador Bruno Fernandes, representante do Comdema, defendeu que Piracicaba integre urbanismo e ecologia. "A logística da cidade não pode ser descolada da construção de ecossistemas. Precisamos pensar a biodiversidade junto com a mobilidade e a infraestrutura", afirmou, para em seguida questionar como são feitas as podas e se há acompanhamento técnico especializado.
O biólogo Felipe Giacomelli, do coletivo Tritura Pira, perguntou sobre o destino dos resíduos de poda e criticou a escolha de espécies inadequadas em novos plantios. "Vejo o município suprimindo mais do que repondo árvores. Também vemos plantios de espécies totalmente inadequadas para determinados locais", afirmou.
Representando a Sociedade para Defesa do Meio Ambiente de Piracicaba, Eloah Margoni argumentou que o problema não é falta de informação, mas de conscientização. "As pessoas sabem da importância das árvores. O problema é que não se importam. Existe uma ideologia dendrófoba. O piracicabano não gosta de árvores", criticou. Ela também questionou as podas realizadas pela CPFL e perguntou por que a cidade ainda não adotou fiação subterrânea.
Richard Birwagen, do Comclima, questionou qual secretaria é responsável por autorizar podas e supressões relacionadas à concessionária de energia. Já Eveline Blumer classificou as podas realizadas em Piracicaba como "assassinas". "Existem técnicas adequadas em outras cidades. Aqui vemos mutilações. Árvore é um ser vivo e precisa ser respeitada", afirmou a ambientalista, que demonstrou preocupação com intervenções previstas na Área de Lazer do Trabalhador, principalmente em relação ao uso de piso intertravado próximo às árvores —segundo ela, esse tipo de obra pode provocar compactação do solo e danos às raízes. "Existe um problema quando se coloca piso intertravado muito próximo das árvores. As raízes acabam sendo cortadas e as árvores começam a secar aos poucos", alertou.
O secretário-executivo Paulo Ferreira respondeu que a Prefeitura realizou análises técnicas das raízes existentes no local e que o piso do estacionamento será elevado justamente para evitar impactos. "Nós analisamos as raízes das árvores e vamos elevar o nível do estacionamento para não afetar as raízes", assegurou.
Falando em nome da CPFL, o coordenador de operações de subtransmissão, Fernando César Pepe disse que as podas são realizadas por razões de segurança elétrica e prevenção de acidentes. "A CPFL, pelo contrato de concessão, tem autorização para tirar o risco para as pessoas que estão transitando em volta da infraestrutura. Então, a CPFL não faz uma poda ornamental; ela faz uma poda para livrar o risco de vida e manter o sistema elétrico funcionando."
Segundo Fernando, a rede de média tensão pode chegar a 11.900 volts, e árvores próximas aos cabos podem representar risco de choque elétrico. Ele também argumentou que a implantação de redes subterrâneas exige intervenções profundas no solo, podendo comprometer raízes e a estabilidade das árvores. Questionado pela vereadora Rai de Almeida sobre alternativas tecnológicas para reduzir os impactos das podas, o representante da CPFL comentou que novas intervenções na rede já utilizam cabeamento isolado e rede compacta, permitindo reduzir o raio das podas. "Hoje, toda nova intervenção já é feita com tecnologia mais moderna, utilizando cabos protegidos e redes compactas", informou.
O secretário-executivo de Meio Ambiente, Gustavo Martins. informou que o Viveiro Municipal distribuiu cerca de 70 mil mudas no último ano, entre plantios e parcerias, e que 4 mil árvores foram plantadas em substituição às removidas em áreas públicas, como praças e calçadas. Ele também informou que o Núcleo de Educação Ambiental (NEA), que chegou a contar com apenas um servidor, passou recentemente a ter quatro profissionais atuando em ações educativas. Segundo Gustavo, campanhas de conscientização e o programa "Plante Vida" estão sendo retomados.
POLÍTICAS PÚBLICAS - O vereador Zezinho Pereira relembrou experiências anteriores na Secretaria de Defesa do Meio Ambiente e defendeu o fortalecimento da estrutura voltada à arborização urbana. "Fiquei muito triste quando desvincularam a arborização da Secretaria do Meio Ambiente. Acho que a cidade precisa criar musculatura nessa área", afirmou o parlamentar, que destacou a necessidade de planejamento adequado nos loteamentos. "As pessoas plantam árvores bonitas sem saber se elas são adequadas para aquele espaço. Às vezes há fiação, solo inadequado ou espécies de grande porte em locais incompatíveis", disse.
Rai de Almeida defendeu que a arborização seja tratada como política pública permanente e criticou tanto a Prefeitura quanto a CPFL pela forma como as árvores vêm sendo manejadas. "A arborização é adaptação climática, saúde pública e qualidade de vida. Documento técnico sozinho não garante resultado. É preciso transparência, metas públicas e monitoramento", declarou a vereadora, que cobrou a atualização do Plano Municipal de Arborização Urbana e perguntou quais metas existem atualmente para cobertura arbórea e plantio de árvores. Ela citou, ainda, a chamada "regra 3-30-300", utilizada em políticas internacionais de urbanismo sustentável, segundo a qual toda pessoa deveria conseguir ver ao menos três árvores da janela de casa, viver em bairros com 30% de cobertura arbórea e estar a até 300 metros de uma área verde pública.
O vereador Gustavo Pompeo destacou que todos os gabinetes da Câmara recebem pedidos de poda e supressão de árvores e apontou haver dificuldade de equilibrar demandas urbanas e ambientais. "É difícil agradar a todo mundo e viver num mundo ideal", afirmou.
Ao final da audiência, Silvia Morales apresentou como encaminhamentos a necessidade de revisão do Plano Municipal de Arborização Urbana; o fortalecimento do corpo técnico do Executivo, com a contratação de mais servidores, e das ações de educação ambiental; o acompanhamento da nova licitação dos serviços de manejo arbóreo, prevista para o final de junho; e a discussão sobre eventual retorno da arborização urbana à estrutura da Secretaria de Meio Ambiente.
A vereadora também defendeu a ampliação das áreas de plantio de árvores e a aprovação de projeto de lei, de sua autoria, que lança as bases para "infraestruturas verdes e soluções baseadas na natureza". "É um projeto que pensa em parques lineares, microflorestas, jardins de chuva. Não é implantado de uma hora para a outra, mas já ficam as diretrizes", explicou a parlamentar, que defendeu que a arborização seja tratada como política pública permanente. "Árvore não dá voto, mas precisamos deixar um legado para as futuras gerações", concluiu a vereadora.
Supervisão: Rodrigo Alves - MTB 42.583
Filmagem: TV Câmara
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