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13 DE OUTUBRO DE 2020

Mulheres ainda são sub-representadas na mídia, avalia jornalista


Eliana Teixeira participou de entrevista ao vivo no Instagram do Parlamento Aberto.



EM PIRACICABA (SP)  

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Para Eliana, os espaços não são tão ocupados por mulheres quanto deveriam, nem tão inclusivos.





Apesar dos avanços, a histórica desvantagem das mulheres nas esferas políticas e sociais ainda persiste. A ascensão feminina, reflexo do empoderamento e do protagonismo conquistados na sociedade, ainda não é suficiente para garantir representatividade e participação igualitária. As disparidades de gênero são facilmente percebidas na mídia hegemônica, onde, claramente, o progresso parou.

“As mulheres formam a maioria da sociedade brasileira. Juntas, somamos 51,8% da população. Infelizmente, não posso dizer que somos bem representadas”, avaliou a jornalista Eliana Teixeira, na última sexta-feira (9), em entrevista ao Instagram do Parlamento Aberto. De acordo com ela, dados recentes mostram que há um longo caminho a ser percorrido para que a igualdade de gênero finalmente se estabeleça.  

Em 2019, a plataforma de comunicação corporativa Work, desenvolvida pelo portal Comunique-se, apontou que existem 15.654 mulheres jornalistas empregadas em veículos de comunicação, o que representa somente 36,98% do mercado da imprensa no país. Isso porque há empregos ativos para 26.678 jornalistas do sexo masculino.

A mídia de TV é a única em que representantes do time feminino compõem mais da metade dos campos disponíveis de trabalho: são 4.040 mulheres jornalistas empregadas, contra 4.007 homens. “A presença das mulheres na televisão, por vezes majoritária, nos dá a falsa noção de igualdade. Em contrapartida, nas rádios, por exemplo, o resultado é bem diferente. São 11.182 homens trabalhando, enquanto há apenas 2.284 mulheres”, ressaltou Eliana.

Segundo ela, a realidade dos dados mostra que os espaços não são tão ocupados quanto deveriam, nem tão inclusivos. A fraca representação das mulheres na mídia tradicional assume formas ainda mais agressivas. Além de perpassadas pelas questões de gênero, as mulheres precisam lidar, ainda, com os preconceitos de raça e de classe. “A mulher preta está muito mais à margem desse processo. Sofre discriminações por ser mulher e por ser negra”, apontou.

A não-inserção dos negros nos meios de comunicação do país, em especial nos telejornais, pode significar, além de menos oportunidades de trabalho, no aumento do preconceito racial. Os padrões de beleza e imagem propagados pela mídia são os responsáveis diretos da baixa representatividade. “Mulheres não se identificam com padrão de beleza mostrado na TV. Há na escolha do profissional um fator predominante que nada tem a ver com qualificação, nem experiência. Para estar à frente de um telejornal é preciso ser branca e ter medidas corporais como a de uma modelo”.

A distorção da imagem da mulher, em especial da mulher negra, foi o que levou Eliana a desistir do telejornalismo há mais de 20 anos. “Tinha acabado de me formar quando marquei uma entrevista em uma emissora de TV. Ao saber que eu estava interessada na vaga, o diretor perguntou a dois amigos brancos, que já trabalhavam no local, quais eram minhas características físicas. Por telefone, ele quis saber se eu era uma mulata mais clara ou mais escura que a Glória Maria. Isso me bateu tão forte que me desestabilizou”.

Perceber que o recrutador estava mais interessado em sua aparência do que em seu potencial despertou na jornalista um sentimento de revolta. “Fui fazer o teste com essa barreira gigantesca. Obviamente, não passei. Depois disso, peguei aversão pelo termo mulata, até pela origem etimológica da palavra, que deriva de mula, e nunca mais quis fazer qualquer teste ou entrevista de trabalho na TV. Migrei para o impresso, onde estou até hoje.”

Embora o tempo tenha passado, os estereótipos e preconceitos continuam tão latentes, se não mais, que há 20 anos. “Passei a não assistir mais à televisão pela falta de representatividade. É uma vergonha que os telejornais só contratem profissionais de pele branca. Não é possível que não haja uma pessoa preta capacitada para ocupar esses espaços. Enquanto não instituirmos percentual de participação obrigatória nas iniciativas privadas, como as cotas raciais, não veremos nenhum aumento de participação, nem da mulher, nem dos negros.”

Eliana reforçou que a participação igualitária das mulheres na sociedade não só é um direito fundamental, mas peça-chave para o desenvolvimento e o crescimento da sociedade. “A mídia, a partir do momento que recebe concessão publica, deveria assumir a função de promover diversidade, a começar por regiões como a nossa. Chega de bancada só de gente branca, precisamos colorir o jornalismo”, enfatizou.

O que a jornalista chamou de “virada de chave” só será possível quando a mídia se converter numa vitrine de representatividade. “A mudança só acontece quando insere pessoas que representem a causa no meio onde se quer diluir o preconceito. Onde não há diversidade, há preconceito.”

ACESSE O CONTEÚDO - As lives do programa Parlamento Aberto são realizadas no perfil do Instagram, que pode ser acessado em @parlamento_aberto. As entrevistas também podem ser conferidas no canal do YouTube do Departamento de Comunicação da Câmara de Vereadores de Piracicaba e, ainda, no podcast produzido pela Rádio Câmara Web. Para receber as informações do Parlamento Aberto direto no celular, cadastre-se na lista de transmissão do Whatsapp neste link.



Texto:  Raquel Soares
Supervisão de Texto e Fotografia: Valéria Rodrigues - MTB 23.343
Revisão:  Ricardo Vasques - MTB 49.918


Mulher Parlamento Aberto

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