11 de outubro de 2023

Homenagens evidenciam empreendedor negro há 30 anos no setor de pizza

Moção de aplausos entregue por Acácio Godoy, em reunião solene da Câmara destaca o legado de Marcos Geraldo Rosa, que há três décadas montou a Rosa’s Pizzas

A história de empreendedorismo de Marcos Geraldo Rosa, conhecido como Rosa, foi relembrada em homenagem da Câmara Municipal de Piracicaba, na moção de aplausos 138/2023, proposta pelo vereador Acácio Godoy (PP), que no requerimento 765/2023 garantiu a reunião solene transcorrida na noite desta terça-feira (10), às 19h30, nas dependências do salão nobre Helly de Campos Melges, onde o contemplado da noite, acompanhado de familiares, amigos, autoridades e representantes de entidades recebeu as honrarias pelos 30 anos da Rosa’s Pizzas, completados em fevereiro de 2023.

Rosa foi um atleta que se destacava nas corridas de 100 e 200 metros em competições na cidade de Marília, onde morava. Ao mudar-se para Piracicaba, conheceu Esmerail Corrêa, também atleta, que mais tarde se tornaria sua esposa. Ao iniciar a vida de casados, receberam o apoio da família e foram morar numa edícula, que possuía grande terreno; surge, então, a intenção de usar aquele espaço para abrirem o próprio negócio.

O casal trazia experiência em diferentes áreas: Esmerail, cabeleireira especializada em cortes afros, e Rosa com assessoria de chefe de cozinha tradicional e vegetariana. Deram então início à construção de um “barracão”, com dois andares, onde iriam empreender. A ideia de montar uma pequena pizzaria surgiu a partir da experiência de Rosa com a produção e venda do produto. Com determinação, tomaram a decisão de montar a Rosa’s Pizzas.

Rosa construiu o primeiro forno de barro para assar as pizzas na lenha. Sozinho, sem projeto técnico, pesquisou e teve o apoio dos Irmãos Schiavolin, donos de olaria no bairro Campestre, onde aprendeu a “fazer” o forno a lenha.

Solenidade

A reunião solene teve transmissão ao vivo pela TV Câmara (nos canais 11.3 da TV digital, 4 da NET e 9 da Vivo TV) e também pôde ser conferida nos perfis oficiais da Câmara, no Facebook e no YouTube, além do site camarapiracicaba.sp.gov.br

Abrindo o ciclo de saudações na solenidade, a integrante do Conselho Deliberativo da Sociedade Beneficente Treze de Maio, Conceição Aparecida Nascimento Sandoval (Ceiça) saudou a formação da mesa diretiva dos trabalhos da noite. E, registrou a satisfação em poder falar do amigo Rosa, companheiro de muito tempo, que "sempre foi além de um excelente profissional, foi um parceiro, mesmo sem saber", destacou Ceiça, que ainda considerou a dedicação de Marcos perante o Treze de Maio, nos eventos onde a pizza era o fator principal na arrecadação de recursos para fins assistenciais e de entretenimento perante a comunidade. A conselheira também parabenizou a assertiva do vereador Acácio nas homenagens. 

O conselheiro da Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba), Marcos Rogério Rossi destacou o quanto de empreendedorismo segue o exemplo de Rosa ao vislumbrar a comercialização das pizzas. Rocci concluiu suas explanações também parabenizando o vereador Acácio pelas honrarias.

O presidente do Conepir (Conselho da Comunidade Negra de Piracicaba), Luciano Alves Lima, que também compôs a mesa de honra, destacou o legado de Marcos Rosa nestes 30 anos ao enfrentar um mercado que não é para qualquer um.  Também ressaltou o caráter da homenagem em contemplar uma pessoa que milita na causa negra de Piracicaba, por também ser um dos conselheiros do Conepir. E, para sinalizar o diferencial da Rosa's Pizza, Luciano Alves citou a preferência de seu filho de 12 anos, por não trocar por nada a pizza "impar, artesanal, em fabricação que agrega a família", disse Luciano, que ainda citou o lado interessante de um afro brasileiro como o Rosa, sendo considerado um dos maiores pizzaiolo de Piracicaba.

O presidente dos trabalhos da noite e autor da solenidade, Acácio Godoy saudou a todos, com destaque a Luciano Alves, presidente do Conepir, que também atua na defesa da pauta do empreendedorismo afro há muitos anos. O parlamentar também pontuou a importância da Acipi e, da amiga Ceiça, conselheira do Treze de Maio, pelo que representa para a trajetória de Marcos Rosa.

"Que gostoso estar aqui esta noite, tão gostoso como a Rosa's Pizzas, disse Acácio, que ainda ressaltou o papel da família, onde não é qualquer empresa que permanece por 30 anos no mesmo ramo. "Só eles sabem o quanto custou isso, quanto choro e lutas, onde as fazes são muitas para lembrar e, continuando ali. O parlamentar também falou de experiência familiar, ao contemplar genro e agregados, onde aumentou o consumo de pizzas. "Quem não conhecia ficou encantado, principalmente o filho menor, Jesus, de 4 anos", concluiu Acácio, que reconheceu a primazia da escolha da homenagem pelo seu gabinete parlamentar.

Acácio também enfatizou o lado atlético de Rosa e, outras atividades, sendo que até no ramo de jornal impresso ele atuou, na circulação do Zona Sul, "além de ser um agente político de primeira mão. Se hoje tem um gabinete negro na Câmara, é por que o Marcos foi um dos tijolinhos a consolidar minha candidatura", disse o parlamentar, que ainda falou do reconhecimento pela história, sobre o engajamento da pessoa em qualquer cenário, com foco no Black Money, em referência ao povo judeu, para a circulação do nosso dinheiro em privilegiar o comércio local.

Na sequencia da solenidade foi exibido um vídeo sobre a história de Marcos Rosa, incluindo sua trajetória e luta para se consolidar no ramo da pizzaria. E, ainda na continuidade da solenidade, o vereador Acácio Godoy fez a entrega da moção de aplausos e as demais honrarias, que foram entregues perante os familiares de Rosa. 

Homenageado

Marcos Geraldo Rosa ocupou a tribuna de honra para agradecer a homenagem. "Estar neste lugar para um homem preto de 63 anos não é fácil. É muita luta e desafio. Agradeço a todos. A vida se define por só uma coisa: as nossas buscas", iniciou o contemplado da noite em seu discurso de gratidão pelas homenagens e presença de amigos e familiares.

Rosa também evidenciou a grandiosidade do trabalho do vereador Acácio. E, rememorou que após chegar à cidade se deparou com uma Piracicaba racista, sendo que até então nem se dava conta de que era um homem preto, o que provocou um olhar diferenciado, onde procurou tomar atitudes para se inserir.

"O esporte te dá visibilidade porque as pessoas não veem a sua cor. Você é quase que intocável", disse Rosa, que também comentou sobre o encontro que teve com o então prefeito de Piracicaba, João Herrmann, que trouxe o Congresso da Une. "Quero você lá, pois eu não tenho nenhum preto lá", disse o ex-prefeito, segundo Rosa.

Rosa também rememorou fatos vivenciados por Ceiça Sandoval, além de outras amizades que fez pela cidade e, discorreu um pouco sobre o desafio que foi montar a pizzaria, passando pela compra do maior número de tijolos, até o desafio de entregar no prazo combinado 500 pizzas, "onde foi o início de Deus mostrando a verdade", disse.

O contemplado da noite também falou do Movimento Negro, além de lembrar de dona Rosinha - presente na solenidade. "Ela falava e a gente ficava quieto porque era algo de excelência. Sou muito grato a Piracicaba, pelo Título de Cidadão Piracicabano, conferido pelo ex-vereador João Manoel dos Santos", disse Marcos Rosa, que ainda fez referência às filhas, em atitudes a tomar perante a vida, sendo mulheres negras.

"Na atitude é que você precisa mostrar que está ali. O negro em determinadas situações tem que tomar cuidado. Entrei em certos lugares graças ao trabalho e fui bem recebido. Isto é algo que vai ficar aqui. Grato. Nunca ganhei um centavo em política, nunca sai candidato. Obrigado a todos. Deus abençoe, em nome da minha família", concluiu Rosa, que ainda mencionou sua esposa, Esmerail, frente à sua linha dura e de firme propósito, visando o melhor objetivo para todos, onde os netos se constituem o melhor troféu da vida.

HISTÓRIA - inaugurada oficialmente em fevereiro 1993 por Marcos Geraldo Rosa, o Rosa, Esmerail Corrêa e as filhas Mayra e Ynaã, a pizzaria sempre foi um espaço aconchegante, com atendimento familiar e de reunião de amigos. Sorriso no rosto, simpatia e pizzas de excelente qualidade, sempre foram suas marcas registradas.

Rosa, nascido em Jaú, mas morava em Marília, se destacava nas corridas de 100 e 200m em competições na sua cidade e região. Mudou-se para Piracicaba para estudar e também treinar na A. D. Unimep com o técnico Ídico Luiz Pellegrinotti, o Deco. A esposa piracicabana Esmerail, também era atleta. Eles se conheceram nos treinos e se casaram numa cerimônia da igreja presbiteriana.

Para dar início à vida de casados, os dois ganharam o apoio da família de Esmerail, do seo Chico (Francisco Corrêa) e sua esposa, dona Maria. Foram morar numa edícula, num grande terreno no cruzamento das ruas Alberto Ramos com Prof. Corte Brilho, no Jardim São Paulo. Mas o casal tinha a intenção de usar aquele espaço para abrir o próprio negócio.

Com o trabalho dos dois em diferentes áreas, Esmerail como cabeleireira especializada em cortes afros, e Rosa com assessoria de chefe de cozinha tradicional e vegetariana, deram início à construção de um “barracão”, com dois andares, onde, realmente, iriam empreender. Depois de anos de esforço, a construção foi concluída parcialmente. Era o momento de pensar no que fazer, principalmente para sair do sufoco financeiro.

Então, surgiu a ideia de montar uma pequena pizzaria, a partir da experiência do Rosa com a produção e venda do produto. Mas, para dar início ao próprio negócio era preciso montar uma pizzaria de verdade. Um local onde as pessoas pudessem ir para comer ou pedir e levar pra casa. Com determinação, coragem, ousadia e muita fé em Deus, tomaram a decisão de montar a Rosa’s Pizzas, com o próprio Rosa, a esposa, a filha Mayra, na época com 8 anos e também a pequena Ynaã, com apenas 4 anos.

Pensando em como atrair os consumidores que Rosa arregaçou as mangas e partiu para a construção de um forno de barro para assar a pizzas na lenha, mesmo sem saber fazê-lo. Pesquisou e teve o apoio dos Irmãos Schiavolin, donos de olaria no bairro Campestre, onde aprendeu a “fazer” o forno a lenha. Os Schiavolin abriram crédito para Rosa comprar os tijolos e a areia. Sozinho, sem projeto técnico, apenas com o aprendizado oferecido pelos oleiros, Rosa construiu o primeiro forno de barro que funcionou por anos.

Mas, para vender pizza era preciso ter os ingredientes. Por já ter experiência no comércio e conhecimento com fornecedores, ele contou com o apoio do dono da Casa de Frios Scarassatti, que ficava próxima à Santa Casa. Com esse crédito e o voto de confiança, comprou os ingredientes para as pizzas e resolveu inovar na massa, para ser o diferencial da Rosa’s Pizzas.

Agora, quando comemora 30 anos de empreendedorismo, Rosa lembra com bom humor das dificuldades, mas garante que faria tudo novamente, corrigindo alguns erros de percurso.

Texto: Martim Vieira - MTB 21.939
Supervisão: Rebeca Paroli Makhoul - MTB 25.992
Filmagem: TV Câmara