10 de março de 2026

Curso na Escola do Legislativo aborda o poder do storytelling e da imagética

Ministrado pela cerimonialista Lúcia Helena Gonçalves, curso foi transmitido on-line na tarde desta terça-feira (10)

Presente na estrutura humana, ato compartilhado pelas mais diversas culturas desde tempos primordiais, o ato de contar histórias é uma habilidade que nos conecta. Há histórias que nos cativam desde o início, que nos fisgam e nos fazem querer acompanhá-las até o seu último fim, e até mesmo depois, quando projetamos em nossas mentes inúmeras outras possibilidades, uma verdadeira constelação de “ses”, de resoluções e fins paralelos.

Se há um “quê” de arte na contação de histórias, é também verdade que existe uma estrutura, uma fórmula, um conjunto de técnicas que faz com que essas histórias atinjam o seu objetivo, comunicando algo sem deixar de lado a empatia e o envolvimento do destinatário daquela mensagem: são os conceitos de storytelling e de imagética, que foram apresentados na tarde desta terça-feira (10) pela cerimonialista Lúcia Helena Gonçalves, pós-graduada em Comunicação e Oratória, Aprendizagem Criativa e Escrita Criativa, em palestra on-line promovida pela Escola do Legislativo da Câmara Municipal de Piracicaba.

Para introduzir os conceitos trabalhados ao longo do curso, Lúcia propôs aos participantes um exercício de imagética, em que todos fecharam os olhos e foram apresentados a uma descrição minuciosa, rica em detalhes e ambiências, de uma cena em que um limão-siciliano é vagarosamente espremido e uma gota de seu suco repousa gentilmente na ponta da língua, causando um choque ácido que trava instantaneamente o paladar e faz a saliva inundar as laterais da boca, contraindo levemente as bochechas e resultando em uma careta.

Com a narrativa, Lúcia não apenas relata uma cena - cuja efetividade é testemunhada por pessoas que interagiram no chat on-line da transmissão -, mas demonstra que, por meio de uma estrutura (storytelling) e elementos narrativos (imagética), é possível emular em nós “uma experiência sensorial completa, sem estímulos externos reais”. 

Viciados em narrativas - Isso acontece, explica a especialista, porque somos "viciados" em narrativas. Quando ouvimos uma boa história, seja ela contada por alguém, encenada em uma peça de teatro ou apresentada em um filme ou uma propaganda, liberamos um "coquetel" de hormônios, como a dopamina, a serotonina, a ocitocina e a endorfina.

A dopamina é liberada quando há suspense ou um "gancho". Ela desperta o interesse, gera foco e mantém o espectador atento ao que vem a seguir. Já a serotonina, considerada o hormônio do bem-estar, acontece quando uma descrição faz com que o ouvinte se sinta parte da história, gerando muitas vezes relaxamento e prazer.

Chamada de hormônio da empatia, a ocitocina é liberada quando da humanização dos personagens, quando vemos alguém "gente como a gente" e criamos laços de confiança. Por fim, a endorfina é o hormônio liberado no final da história, quando o conflito é resolvido e o personagem alcança um certo alívio.

Roteiro para uma boa história - Para que esse coquetel de hormônios seja criado, há, de acordo com a cerimonialista, uma estrutura a ser seguida: “Sem conflito, não há história. Se tudo deu certo desde o início, é apenas um relatório de sucessos e não gera dopamina. O cérebro humano presta mais atenção se houver um obstáculo a ser superado”.

Há um roteiro básico, que se inicia no mundo comum, na vida cotidiana, no “era uma vez”, e que é perturbado por algum incidente, o “até que um dia”, que faz com que aquele estado inicial seja modificado.

Em decorrência dessa perturbação no estado das coisas, uma ação é empreendida, uma luta acontece e, por causa dela, algo novamente muda. Com isso, aquele problema ganha uma resolução e, com essa mudança, uma nova ordem é estabelecida.

“O storytelling é a estrutura e a imagética é uma ferramenta de impacto. Ele fornece o esqueleto, o início, o meio e o fim, mas a Imagética é o que dá carne e vida à história”, explica.

Para que uma história cative, há diversos “gatilhos” a serem explorados, a exemplo do gatilho visual, com grande requinte descritivo de ambientes; do auditivo, como o uso de trilhas sonoras, efeitos e pausas que criam ambiências e direcionam atenções; do tátil, com a descrição de sensações físicas, como o “vento gelado que cortava o rosto”; do olfativo, com a descrição de cheiros e aromas, capazes de ativar o sistema límbico e atiçar emoções e memórias de longo prazo; e o do gatilho do estado interno, que são as descrições das sensações emocionais e sentimentos, como o “nó na garganta” e o “frio que subia pela espinha”.

A construção da personagem - Uma história é feita de personagens que não apenas transitam pelas narrativas, mas que a elas dão vida.

Assim como a estrutura narrativa segue um padrão amplamente reconhecido, há também uma série de estruturas que fazem com que um personagem crie uma conexão verdadeira com os destinatários da história, envolvendo-os na trama.

O personagem precisa, antes de mais nada, ter um objetivo, saber o que quer: “Todo personagem precisa de um motor. Se ele não quer nada, a história não anda”.

É isso que vai gerar ansiedade no espectador e, consequentemente, a dopamina.

Além de ter um objetivo, para que haja conexão com o público, o personagem tem que se mostrar vulnerável, humano, real, com medos e aflições como qualquer outra pessoa. Isso libera ocitocina, já que o público sente empatia porque também tem inseguranças.

Um personagem ainda precisa ter contradições, com múltiplas dimensões e camadas complexas, fugindo de estereótipos.

Para isso, na construção da história, é importante que o personagem seja descrito de forma ampla, mostrando o que ele vê, ouve, escuta, sente e faz. "Um personagem não é amado pelo seu sucesso, mas pelo esforço que faz para vencer, apesar de suas fraquezas”, destaca Lúcia Helena Gonçalves.

Aplicações do storytelling - As aplicações dessas estratégias e estruturas são tão vastas quanto as formas narrativas que existem, seja na indústria cinematográfica, na publicidade, no marketing e na venda, ou no dia a dia dos chamados influenciadores digitais, que conseguem manter seus seguidores fiéis não pelo "que" fazem, mas pela narrativa que constroem em torno da própria vida.

Há ainda aplicações mais próximas ao cotidiano das pessoas, como no discurso de um palestrante que mostra suas fraquezas e como as superou; de um professor, de um advogado, de um gestor ou político que consegue humanizar a burocracia e traduzir números de orçamento em benefícios sociais e tantos outros.

“Cortem os seus limões e façam o mundo salivar pelas ideias de vocês!”, concluiu Lúcia Helena Gonçalves.

O curso completo foi transmitido ao vivo e encontra-se disponível no canal do YouTube da Escola do Legislativo da Câmara Municipal de Piracicaba.

Texto: Fabio de Lima Alvarez - MTB 88.212
Supervisão: Rodrigo Alves - MTB 42.583