PIRACICABA, SEXTA-FEIRA, 25 DE SETEMBRO DE 2020
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11 DE AGOSTO DE 2020

Concepções de gênero sustentam opressões históricas, diz especialista


Joanna Burigo, mestre em gênero, mídia e cultura, participou de entrevista ao vivo no Instagram do Parlamento Aberto.



EM PIRACICABA (SP)  

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Joanna Burigo é uma das principais referências do feminismo no Brasil





Mulheres no Brasil não são minoria. Somadas, elas compõem 51,8% da população nacional. Mesmo assim, são discriminadas, sub-representadas e menos remuneradas. Estão em desvantagem, não só em relação aos homens, mas em todas as organizações sociais e de poder. Para a mestre em gênero, mídia e cultura Joanna Burigo, o fenômeno de naturalização de estereótipos de gênero criou e permitiu diversas opressões e desigualdades históricas.

Em entrevista ao Parlamento Aberto no Instagram, nesta segunda-feira (10), Joanna desmitificou as questões de gênero e as concepções de feminilidade e masculinidade. Segundo ela, existem uma construção e uma imposição social em relação ao que é ser mulher. “Não há nada inerentemente no rosa ou no azul que se assemelhe à fêmea e ao macho da espécie. O que conhecemos por masculino e feminino não é uma verdade, são prerrogativas e preceitos ideológicos de manutenção e controle do poder”, explicou.

Para ela, gênero, ao contrário do pregado há bastante tempo, é uma linguagem que se inscreve em corpos, não uma essência ou algo natural e imutável, sendo, portanto, uma construção social, e não biológica. A naturalização de algo construído socialmente e imposto ao longo dos séculos fez com que algumas atividades fossem culturalmente atribuídas às mulheres –como brincar de boneca e de casinha– e aos homens –como brincar com armas e Lego. 

Isso acarretou, conforme listou Joanna, na baixa participação feminina em todos os espaços de poder, na subjugação dos seus corpos e na forma como são tratadas cotidianamente: como seres inferiores e vulneráveis. O combate à masculinidade hegemônica não é nova, como permeia o imaginário popular, mas remete a lutas antigas, protagonizadas por mulheres ao redor do mundo todo e que, graças ao avanço das tecnologias, se torna cada vez mais abrangente.

“A impressão que eu tenho é de que a mudança nas formas como a gente hoje se apropria da produção de comunicação permitiu que nos últimos anos se acelerasse a visibilidade de grupos marginalizados. Conseguimos mudar, de forma contundente, a narrativa das mulheres e dos negros no mundo todo", avaliou.

A experiência humana mostra, no entanto, que um indivíduo pode ter outras identidades que refletem diferentes representações de gênero (como os transexuais e transgêneros). Os padrões da identidade do feminino e do masculino podem, de acordo com Joanna, prender homens e mulheres em papeis rígidos e culminar em violências profundas.  

“Os homens se beneficiam dessas pseudonoções de que, por exemplo, a mulher é mais sensível. Essa naturalização da sensibilidade como sendo algo inerente às mulheres os redime de terem conversas sobre emoções, por exemplo, e é determinante nas relações afetivas, em que a mulher geralmente suporta todo o peso emocional da relação”, argumentou.

Esse processo assume formas mais violentas quando faz com que mulheres negras estatisticamente recebam menos vacinas na hora do parto pela noção de que são mais fortes e conseguem suportar mais dores. “Aqueles de nós em posição de privilégio, como a mulher e o homem branco e hétero, precisamos romper esse pacto narcisista de que somos de alguma forma superiores, porque não somos.”

Para a mestre em gênero, falar sobre feminismo em um momento em que o país atravessa uma onda retroativa aos avanços do feminino é tanto um fardo como uma chama de esperança. “O momento exige bastante garra. É assombroso o volume de atos que eu, francamente, enquadro como perversões da democracia. Ao mesmo tempo, a ferramenta discursiva que eu uso para me tirar desse lugar de exasperação é que o momento é propício para acumular evidências.”

Para Joanna, a crise de saúde publica escancara dados e números em posse dos quais não é preciso mais disputar a realidade. “A mulher é sempre a maior vítima de qualquer tragédia, especialmente a mulher negra. Quando falamos que o racismo e o machismo são estruturais, as pessoas devem entender que esses dados são as evidências dessa estruturalidade. Não é à toa que mulheres negras são as maiores vítimas da pandemia, isso é evidência. Este é o momento de fazermos esse tipo de reflexão.”

A ENTREVISTADA - Uma das principais referências do feminismo no Brasil, Joanna Burigo é fundadora da Casa da Mãe Joanna, projeto feminista de comunicação e educação sobre gênero, cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e coordenadora pedagógica do Emancipa Mulher. Dedica-se a empreendimentos feministas desde que completou seu mestrado, em 2012, na London School of Economics and Political Science, na Inglaterra.

Além disso, é organizadora dos livros “Tem saída? Ensaios críticos sobre o Brasil” e “Novas contistas da literatura brasileira”. Também tem textos publicados nos periódicos Carta Capital, The Intercept Brasil e HuffPost.

MULHER - O Parlamento Aberto exibe, até sexta-feira (14), uma série de lives em seu perfil no Instagram voltadas para estimular a reflexão sobre os desafios da mulher na luta por representatividade e a formação crítica frente às pautas feministas e suas interseções na contemporaneidade. Acompanhe a programação

ACESSE O CONTEÚDO - As lives do programa Parlamento Aberto são realizadas no perfil do Instagram, que pode ser acessado em @parlamento_aberto. As entrevistas também podem ser conferidas no canal do YouTube do Departamento de Comunicação da Câmara de Vereadores de Piracicaba e, ainda, no podcast produzido pela Rádio Câmara Web. Para receber as informações do Parlamento Aberto direto no celular, cadastre-se na lista de transmissão do Whatsapp, neste link.



Texto:  Raquel Soares
Supervisão de Texto e Fotografia: Valéria Rodrigues - MTB 23.343
Revisão:  Ricardo Vasques - MTB 49.918


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