14 de maio de 2020

Alergias alimentares: Médica alergista explica diferenças em palestra

Médica convidada falou sobre anafilaxia alimentar em palestra promovida pela Escola do Legislativo da Câmara de Vereadores de Piracicaba

Texto: Daniela Teixeira - MTB 61.891

“Existe uma diferença enorme entre reações alérgicas e não alérgicas aos alimentos”, afirmou a médica Elaine Gagete Miranda da Silva durante a palestra ‘Anafilaxia Alimentar: Aspectos de Saúde e Inclusão’, realizada na tarde desta quinta-feira (14) e transmitida na internet, ao vivo, pela plataforma virtual Zoom. A médica explicou que toda pessoa que passa mal ao ingerir um alimento tem uma reação a ele, que pode ser uma reação alérgica ou não alérgica. No entanto, as reações alérgicas são bem mais graves.

Elaine Gagete afirmou que é visível e existem vários trabalhos na área médica que demonstram o aumento das alergias alimentares. Ela constatou que esse “boom da alergia alimentar” fez muitas pessoas acreditarem que são alérgicas a determinados alimentos e isso acabou “banalizando” a alergia alimentar. “Existe uma diferença enorme entre reações alérgicas e não alérgicas e isso desmoraliza a alergia alimentar, porque as pessoas acham que qualquer coisa é alergia e as crianças que realmente são alérgicas são menosprezadas. Às vezes aquela professora da escola pode achar que não é tudo isso”, disse.

A médica citou uma pesquisa feita na Europa em que 17,3% dos entrevistados responderam que tinham alergias alimentares. Foram realizados testes e foi confirmada alergia em apenas 0,9% deles. “Alguns alimentos realmente fazem mal por um mecanismo alérgico e muitos fazem mal por um mecanismo não alérgico, as pessoas tem uma tendência a falar que é alergia”, observou.

Para explicar a diferença entre alergia alimentar e reação não alérgica ela deu o exemplo da intolerância à lactose: “O leite tem um açúcar que se chama lactose e esse açúcar precisa de uma enzima que chama lactase pra sua digestão. Quando a pessoa não tem a quantidade suficiente dessa enzima ela tem uma dificuldade na digestão do leite, então ela tem diarreia, dá náuseas, mas não é alergia.” No caso da alergia, a médica esclareceu que a reação é com a proteína do leite sendo muito mais grave que a intolerância: “Na alergia o organismo reage e combate o alimento como se fosse um agente agressor. Quando a gente tem anticorpos contra um alimento o organismo vai combater esse alimento como se ele fosse algo muito grave, como se causasse algo muito perverso para esse organismo.” E completa: “Nesse caso o organismo desenvolve toda uma reação que pode levar a erupções na pele, inchaço, dificuldade para respirar, diarreia e sangramento intestinal.”

Além da intolerância, outros exemplos de reações alimentares não alérgicas citadas pela médica foram os efeitos farmacológicos, como por exemplo, o consumo de chocolate que causa enxaquecas em alguns e não necessariamente é alergia, e as toxinas alimentares que se dá pela ingestão de comida contaminada e pode causar um quadro grave. “Muita coisa que a pessoa chama de alergia na verdade não é.”

ANAFILAXIA - A médica Elaine Gagete também é integrante da Comissão de Anafilaxia da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI). Ela deu destaque, dentre os vários tipos existentes de reações alérgicas, à alergia mediada por IgE -  uma reação alérgica muito rápida que caracteriza as anafilaxias. De acordo com Elaine Gagete, a anafilaxia é uma doença sistêmica que atinge todos os órgãos do organismo, potencialmente fatal, podendo evoluir em questão de minutos para quadros mais graves, com insuficiência respiratória, falência cardiocirculatória e morte. Ela esclareceu que nem sempre “é todo esse horror”, podendo ser de intensidade leve, moderada ou grave, mas é algo “instantâneo” que acontece de “forma concomitante” e pega pelo menos “dois quadros do organismo”.

Segundo a médica, o tratamento para anafilaxia precisa ser imediato e o uso da adrenalina é o mais correto porque age em segundos, sendo o “medicamento da linha de frente” para ser usado aos primeiros sinais da alergia. Todavia, ela lamenta o fato de só existir no Brasil a adrenalina em ampolas e que os alérgicos precisam de adrenalina autoinjetável por ser “muito mais prática”. Ela explicou que nenhum laboratório brasileiro produz esse tipo de adrenalina e,  por não existir o registro do medicamento no país, o SUS (Sistema Único de Saúde) fica impedido de distribuir a medicação autoinjetável.

INCLUSÃO NAS ESCOLAS – A palestrante convidada citou a lei federal 13.722/2018, conhecida como Lei Lucas, que torna obrigatória a “capacitação em noções básicas de primeiros socorros de professores e funcionários de estabelecimentos de ensino”. Contudo, segundo a médica, “na lei não existe anafilaxia”. Para ela, a luta é para que a lei seja colocada em pauta e também para incluir as crianças com anafilaxia.

A mediadora da palestra Heloize Milano - do Coletivo Acolhimento Alimentar de Piracicaba -citou a lei estadual 16.925/2019 que determina que as escolas devem “capacitar seu corpo docente e equipe de apoio para acolher a criança e o adolescente portador de deficiência ou doença crônica”. Segundo ela, a lei estadual já compreende a anafilaxia e também aborda a questão de responsabilidades administrativas e multas para as escolas que não cumprirem a lei.

Para Heloize Milano, é necessário que existam grupos da sociedade civil organizada que comecem o diálogo sobre a inclusão social das crianças alérgicas porque “as pessoas não fazem ideia do que é viver com isso”. Ela orientou os pais a procurarem a defensoria pública – caso o SUS da cidade não disponha de um alergista – e também indicou que existe um canal de ouvidoria do SUS para reclamar. “O que você não pode é escutar que seu filho não vai ser atendido na escola e achar que tudo bem, afinal de contas são crianças pequenas na maioria das vezes, e o primeiro local de socialização que ele vai ter é a escola. Se a gente não mostrar pra eles que eles são dignos naquele momento, como aquela criança vai crescer e se desenvolver achando que não tem direito a nada? A gente quer que todo mundo acesse o seu direito”, declarou.

A palestra ‘Anafilaxia Alimentar: Aspectos de Saúde e Inclusão’ foi promovida pela Escola do Legislativo da Câmara de Vereadores e faz parte da programação da 3ª Semana da Conscientização da Alergia Alimentar de Piracicaba, que é realizada em parceria com o Coletivo Acolhimento Alimentar. A palestrante convidada, Elaine Gagete Miranda da Silva, parabenizou o trabalho do Coletivo e da vereadora Nancy Thame (PV), diretora da Escola, pelo trabalho realizado na cidade: “Se preocupar com isso é uma coisa muito bacana, tentar fazer essa inclusão das crianças que têm problemas de anafilaxia e têm problemas de alergia em geral é uma iniciativa excelente e acho que Piracicaba é uma cidade pioneira nisso, eu não tenho notícias de outras cidades que tenha essa preocupação tão grande como vocês.”

Para a vereadora Nancy Thame, a palestra e as informações dadas pela médica trouxeram um “alento” porque tem muitas pessoas trabalhando pelo tema, mas ainda existem grandes desafios. “E por isso as sociedades têm que se organizar e formar redes sim, para que as pessoas tenham também o seu espaço junto à sociedade e que possam ter seu dia a dia de uma forma mais segura”, afirmou.