PIRACICABA, SEXTA-FEIRA, 3 DE JULHO DE 2020
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23 DE JUNHO DE 2020

Aula discute aquecimento global, consumo e novas formas de produção


Escola do Legislativo promoveu, na tarde desta terça-feira, roda de conversa virtual com o tema "É urgente falar sobre o clima".



EM PIRACICABA (SP)  

Detalhe da apresentação durante a roda de conversa, na tarde desta terça-feira

Detalhe da apresentação durante a roda de conversa, na tarde desta terça-feira

Rick Badra, mestre em sustentabilidade

Rick Badra, mestre em sustentabilidade

Letycia de Resende Janot Pacheco, especialista em negócios internacionais

Letycia de Resende Janot Pacheco, especialista em negócios internacionais

Detalhe da apresentação durante a roda de conversa, na tarde desta terça-feira

Detalhe da apresentação durante a roda de conversa, na tarde desta terça-feira

Adelino Ricardo Jacintho Esparta, doutor em energia

Adelino Ricardo Jacintho Esparta, doutor em energia

A vereadora Nancy Thame, diretora da Escola do Legislativo

A vereadora Nancy Thame, diretora da Escola do Legislativo
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Detalhe da apresentação durante a roda de conversa, na tarde desta terça-feira



Os efeitos do aquecimento global, as possibilidades de consumo sustentável e as novas formas de produção no campo foram discutidos por três especialistas em roda de conversa virtual promovida pela Escola do Legislativo, da Câmara de Vereadores de Piracicaba, na tarde desta terça-feira (23). Com o tema "É urgente falar sobre o clima", o evento reuniu convidados e público na plataforma virtual Zoom, com exibição simultânea pelo canal da Escola do Legislativo no YouTube.

Especialista em negócios internacionais, Letycia de Resende Janot Pacheco observou que a sociedade viveu, "por muitos anos, uma ilusão de abundância de recursos naturais" e que o momento atual pede "mudanças muito grandes na forma de se locomover, se alimentar, consumir e descartar resíduos".

"Só o conhecimento pode nos levar a buscar novos caminhos", ponderou, ao criticar o atual modelo, "que explora recursos naturais muitas vezes acima da capacidade da Terra de repô-los". "Ao final da vida útil, eles não têm nenhum valor econômico, tornando-se um novo problema, como os resíduos sólidos", exemplificou.

Letycia apresentou quatro conceitos (pegada ecológica, pegada hidrológica, economia circular e inteligência ecológica), que dão a dimensão do impacto das atividades humanas no planeta ao mesmo tempo em que sinalizam caminhos para alcançar o desenvolvimento sustentável.

Primeira dessas ferramentas, a pegada ecológica mede a extensão de terra natural necessária para sustentar o consumo atual de bens e serviços e absorver os resíduos gerados por um indivíduo, cidade ou país, excluído o volume de terras degradadas e as ocupadas por cidades.

Segundo a especialista em negócios internacionais, o padrão com que o mundo caminha hoje "não é sustentável no longo prazo". "É preciso usar os recursos e processos essenciais na natureza em uma velocidade inferior à sua capacidade de renovação e gerar resíduos em velocidade inferior à sua capacidade de absorção", definiu.

A pegada hidrológica, por sua vez, mede o uso total da água, de forma direta (o consumo dela) ou indireta (seu uso em bens e produtos). Na comparação exibida por Letycia, uma maçã emprega 125 litros de água até sua colheita, enquanto um quilo de carne exige 15.400 litros em todo o seu processo.

"A pegada hidrológica é bastante relevante para demonstrar, por exemplo, os impactos ambientais por tipo de indústria e quais produtos usam água de forma intensiva", salientou, acrescentando que "o agronegócio é um grande consumidor dos recursos hidrológicos".

Terceiro conceito apresentado pela especialista em negócios internacionais, a economia circular tem como pilar a preocupação com o design de produtos, a fim de que materiais sejam reaproveitados indefinidamente ou sejam integralmente biodegradáveis, possibilitando a logística reversa e o reuso, reiniciando a cadeia.

Já a inteligência ecológica requer "transparência radical" em informar o consumidor sobre todos os impactos de um produto à saúde humana e ao meio ambiente, com o objetivo de permitir uma escolha consciente. "Podemos praticar o consumo responsável pelo acesso a informações relevantes, regras básicas ('Realmente preciso desse produto?') e adesão a novas iniciativas, práticas e leis", comentou Letycia.

AQUECIMENTO GLOBAL - Engenheiro químico e doutor em energia, Adelino Ricardo Jacintho Esparta apresentou painéis que mostram o avanço do aquecimento global. "Não é algo que está no âmbito da opinião, é um fenômeno físico", afirmou, enfático, rebatendo declarações de autoridades do país que, com base em fatos pontuais, negam o que já foi comprovado pela ciência.

Esparta listou recordes recentes de temperatura no país e no mundo: os 35,9 graus Celsius no inverno de 2019 em São Paulo; os 20,7 graus Celsius na Antártida, em 9 de fevereiro deste ano; e os 45 graus Celsius no Ártico no último dia 19, marca 50% superior à maior já verificada anteriormente. Tais registros, segundo o doutor em energia, "dão uma indicação forte de que o clima está mais quente no planeta". Ainda assim, disse ele, a ciência analisa grandes períodos da história para afirmar se o aquecimento global está ou não em curso.

Esparta apontou como causa do fenômeno o aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Embora seja um gás que ajude a regular a temperatura na superfície da Terra, dando condições para a existência de vida tal como hoje ela é conhecida, sua presença saltou de 280 partes por milhão na era pré-industrial (há mais de 300 anos) para 410 em 2020 (eram 379 em 2005).

O CO2 é eliminado em larga escala com a queima de combustíveis fósseis. Retirados da terra, o carvão e o gás naturais e o petróleo geram gases que são lançados para a atmosfera --a alta na concentração nos últimos 100 anos foi classificada por Esparta como "violenta e perigosa". "Se aumentou a quantidade de gases, a temperatura vai aumentar", resumiu.

O doutor em energia observou que, se a constatação da existência do aquecimento global nada tem a ver com opinião, as ações para lidar com o fenômeno, pelo contrário, dependem da vontade política das autoridades. Ele citou o exemplo do Acordo de Paris, que entrou em vigor em 2016. Na época, o Brasil se comprometeu a reduzir suas emissões de gases do efeito estufa, levando-se em conta os níveis de 2005, em 37% até 2025 e em 43% até 2030.

O país, em comparação com outros, em tese apresenta vantagens para cumprir a meta, se considerados, por exemplo, que o Brasil tem emissões menores de gases do efeito estufa e que sua matriz energética é "relativamente limpa" em relação à de várias nações, conforme destacou Esparta. "A parte renovável da nossa matriz é acima de 40%, quando no mundo não passa de 20%."

MERCADOS IMERSOS - O mestre em sustentabilidade Rick Badra apresentou as bases de um sistema agroalimentar sustentável, que em Piracicaba tem na Rede Guandu "um exemplo de articulação social que incentiva a produção, o consumo e a distribuição de alimentos agroecológicos e da agricultura familiar".

Badra traçou um panorama histórico para mostrar como a produção de alimentos sofreu mudanças desde a Revolução Industrial, no século 17, e a introdução, no século 20, de tecnologias que tornaram a agricultura dependente de sementes, maquinários e adubos químicos, com reflexos na padronização da produção, no beneficiamento e na distribuição dos alimentos.

As consequências citadas por Badra vão desde a verificação de fome e pobreza "mesmo num contexto de recordes de produtividade de alimentos, fibras e matérias-primas" até a devastação dos recursos (água, solo e biodiversidade), a influência da globalização sobre o preço dos alimentos (afetando a segurança alimentar das populações) e o distanciamento entre produtores e consumidores.

O mestre em sustentabilidade defendeu a importância da mobilização política e social, que no Brasil já reverteu no surgimento de políticas públicas e ações de incentivo, como o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) e o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar).

Badra apontou os mercados imersos como possibilidades de viabilizar um desenvolvimento rural que estimule interação e proximidade entre produtores e consumidores. O modelo tem como características a quebra do monopólio dos mercados existentes, a construção de novas conexões entre eles, a criação de novos mercados e o desenvolvimento de uma nova governança, com estrutura para mercados existentes e novos.

Os mercados imersos, segundo o mestre em sustentabilidade, têm como diferenciais os preços e a distribuição do valor adicionado, em que "o produtor recebe mais pelo que planta e nós, consumidores, pagamos menos também". 

Diretora da Escola do Legislativo, a vereadora Nancy Thame (PV) classificou de "fantástico" o conteúdo discutido na roda de conversa. Presidente das comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara, ela destacou a ligação entre os três temas abordados pelos convidados.

"Trouxeram reflexões muito importantes num contexto amplo sobre a importância de se falar sobre o clima. Foram abordados os conceitos científicos e as medidas governamentais na esfera individual e coletiva nos municípios, onde o papel de cada um de nós, como cidadãs e cidadãos, é importante. Como exemplos, foram citadas as atitudes de consumo e as novas iniciativas, práticas e leis. Foram também muito importantes as considerações sobre mercados imersos impulsionados por políticas públicas", analisou Nancy.



Texto:  Ricardo Vasques - MTB 49.918
Supervisão de Texto e Fotografia: Valéria Rodrigues - MTB 23.343


Escola do Legislativo Nancy Thame

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