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15 DE MAIO DE 2018

Ativista negro aborda 300 anos de escravidão no Brasil


"Temos conquistas, retrocessos, abuso das leis e leis que não saíram do papel", disse Adney Araujo de Abreu, da Tribuna Popular da Câmara, na noite de ontem (14)



EM PIRACICABA (SP)  

Foto: Fabrice Desmonts - MTB 22.946 Salvar imagem em alta resolução

Ativista negro aborda 300 anos de escravidão no Brasil




O ativista negro, Adney Araújo de Abreu ocupou a Tribuna Popular da Câmara de Vereadores de Piracicaba, na 27ª reunião ordinária de ontem (14) para destacar os 130 anos da abolição no Brasil, que culminou na assinatura da Lei Áurea, pela princesa Isabel, em 13 de maio de 1888.

"Venho falar dos 130 anos da abolição, uma fala de ativista, não de uma fala técnica, e falar de 300 anos de escravidão, sendo que o Brasil foi o último país a fazer a abolição dos negros. Temos conquistas, retrocessos, abuso das leis, leis que não saíram do papel. Temos que fazer uma reflexão, sobre o que foi o ano de 1888, 13 de maio, quando os negros estavam libertos", disse.

Adney também chamou atenção para a importância do dia seguinte, 14  de maio, que passou a ser eterno, o dia depois, da linha da história, que tem que ser contada, após a liberação. "Nós tivemos a maior quantidade de negros tirados de um país, na linha da história, uma diáspora, de um grande contingente de gente tirada de outra terra. E a gente faz essa reflexão. E aí, o que dizia a Carta Magna, o negro está liberto. Mas, que liberdade seria esta, sem terra, sem direito, sem nome, jogado ao léu", reflete o ativista.

Para Adney, o dia 14 representa o dia de hoje, na nossa sociedade, nos quilombos, hoje chamados de favelas e, com dignidade, chamado de comunidade. Nestes locais não encontramos apenas os negros, mas quem ficou à margem da linha da história. É importante explicar a história da lei de Cotas, em que o negro não tinha trabalho e nem terra, mas vieram os imigrantes, com direitos assegurados pelo Estado.

Adney também indaga sobre como o negro poderia adquirir sua terra, se a lei impedia o título de propriedade nesta época. O ativista também se reporta ao papel da mulher negra, sendo que as sinhás não iam ficar sem suas empregadas, sendo que 127 anos depois da escravidão, chega a abolição para as mulheres negras brasileiras, o que reflete o trabalho destas mulheres desde o Brasil Colônia, época do Império, onde elas sequer eram reconhecidas como trabalhadoras, sendo regidas por estas mesmas leis até os dias atuais, com relação às leis sobre aposentadoria.

Para Adney, a comunidade negra ainda aguarda uma abolição, pois ela não foi incluída no processo de industrialização, na década de 30, com o governo de Getúlio Vargas. E, os poucos que conseguiam formação superior tinham direitos negados, a exemplo de advogados de renome que se tornavam rábulas, impedidos de frequentar uma instituição escolar.

Adney adverte que as leis ainda não saíram do papel. Citou que tivemos apenas um negro na história do Quinto Constitucional, na formação do Supremo Tribunal Federal, na pessoa do Ministro Joaquim Barbosa, que foi guinado ao cargo pelo seu notório saber e não pela cor da pele. O ativivista ainda falou da formação do Código Penal, que tende a considerar os casos de racismo em situações de injúria, não indo no cerne da questão racial.

Adney mostrou que o maior crime na rede de internet é de racismo, suplantado pela pedofilia e o roubo, quando criminosos se escondem atrás de uma tela para praticar delitos, de maneira covarde.

Adney também comentou sobre o Estatuto da Igualdade Racial, como marco de luta depois de 120 anos, considerando que a Carta Magna, a Constituição de 1988 não contempla a totalidade das demandas da comunidade negra.

O ativista negro encerrou suas considerações da Tribuna da Câmara observando que numa data tão específica, como os 130 anos de abolição da escravidão no Brasil e nos 117 anos de fundação do Clube Treze de Maio, oriunda da Sociedade Beneficente Antonio Bento, de 1901, nenhum, dos três principais jornais impressos que ainda circulam diariamente em Piracicaba não deram nenhuma nota ou matéria sobre o Dia 13 de Maio.

O vereador José Marcos Abdala (PRB), no encerramento da fala de Adney solicitou pela Ordem, para agradecer as explanações referentes à comunidade negra e solicitou que o Conepir (Conselho da Comunidade Negra de Piracicaba), presidida por Adney Araújo forneça mais dados e documentações que possam respaldar a Câmara sobre as demandas dos negros em Piracicaba.

 

 



Texto:  Martim Vieira - MTB 21.939
Supervisão de Texto e Fotografia: Valéria Rodrigues - MTB 23.343
Imagens de TV:  TV Câmara


Tópicos: Tribuna Popular

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